domingo, março 08, 2009

15) Minitratado das interrogações - Paulo Roberto de Almeida

Minitratado das interrogações
(você tem alguma dúvida a este respeito?)
Paulo Roberto de Almeida

Interrogantes são inerentes à espécie humana, e talvez mesmo a certos primatas. Determinadas escolhas, ou caminhos, nos levam a uma situação de melhor conforto material ou de maior segurança pessoal, sem que, no entanto, saibamos, ou tenhamos certeza, ao início, que aquela opção selecionada é, de fato, a de melhor retorno ou benefício possível. Dúvidas, questionamentos, angústias, em face das possibilidades abertas em nossa existência, são inevitáveis em todas as etapas e circunstâncias da vida. Daí a interrogação, normalmente simbolizada pelo sinal sinuoso que colocamos ao final de certas frases: ?
Nossos vizinhos ibéricos, ou melhor, hispano-parlantes ou hispanófonos, são mais diretos e explícitos, posto que já começam a frase interrogativa pelo sinal apropriado – ¿ – que creio deveríamos também importar para a língua portuguesa. É uma maneira clara e direta, pelo menos na expressão escrita, de deixar patente que nossas dúvidas vão do começo ao fim de um problema. Sempre é assim, pois a incerteza precede a reflexão e a própria ação (muitas vezes no escuro). Melhor, portanto, começar todo o processo pelo começo, que é a demonstração aberta de que somos ignorantes e desejamos ou precisamos saber algo que não sabemos previamente.
Tendo já escrito um mini-tratado das reticências – ver aqui – e um outro sobre as entrelinhas – aqui – creio poder oferecer agora algumas reflexões sobre nossa ignorância fundamental, ou pelo menos, nossas dúvidas iniciais, sempre presentes nas mais diferentes situações a que somos confrontados.
Não vou me estender sobre as dúvidas ‘científicas’, ou seja, pelos procedimentos normalmente associados a todo e qualquer esforço de pesquisa, de investigação, de busca de respostas a problemas objetivos da vida acadêmica ou empresarial: qual a origem e as causas deste fenômeno ou processo?; como atender a este determinado problema prático em nossas vidas, como maximizar a satisfação do cliente, ou ainda, como despertar-lhe desejos até aqui insuspeitos por novos produtos que simplesmente não existiam ou que o consumidor nem sabia, antes, de que tinha ‘necessidade’? Tampouco vou me ocupar das dúvidas governamentais: quais são as verdadeiras prioridades da população?; como distribuir os recursos escassos em função de múltiplas necessidades?; como prestar contas das escolhas oficiais e dizer aos eleitores que nem tudo é possível ser feito ao mesmo tempo? Vou me dedicar, apenas e tão somente, às interrogações simplesmente humanas, mais exatamente relacionais, posto que as dúvidas e questionamentos existem geralmente em situações de interação social: como devo responder a determinado impulso pessoal ou demanda externa?; que desculpa devo dar à minha inadimplência involuntária ou de pura distração?; que profissão escolher, que concurso público fazer, que estudos empreender, além e acima do ensino oficial?

A primeira coisa que poderia ser dito sobre as interrogações é que elas são, de certo modo, inevitáveis. Ninguém escolhe ter ou não ter questionamentos, pois eles surgem espontânea e involuntariamente, eu diria até inapelavelmente, no curso de nossa existência, sempre cheia de dúvidas e incertezas, sobretudo as de ordem moral e afetiva. Saber o que é o certo e o errado, em circunstâncias normais, pode parecer trivial, pois aprendemos no curso de nossa formação alguns ensinamentos de nossos pais ou educadores, que nos transmitem algum sentido do justo e do injusto, do que é permissível ou não em nossas ações que atingem nossos semelhantes ou até plantas e animais. Hoje em dia, aliás, com o politicamente correto e o ambientalmente desejável, nenhuma criança mais sai por aí esmagando formigas e minhocas com os pés, como fazíamos décadas atrás: todos sabemos que qualquer ser vivo cumpre uma função na grande cadeia da vida, assim que chegamos a poupar até baratas, sem dúvida alguma os seres mais nojentos que nos é dado encontrar na vida cotidiana (bem, alguns têm dúvidas, justamente, se ladrões de velhinhas, pedófilos estupradores e políticos desonestos também não mereceriam figurar ao lado das baratas, mas isso é controverso, duvidoso, interrogativo...).
Essas interrogações não são as mais difíceis, e sim aquelas que surgem do chamado custo-oportunidade: fazer ou não uma coisa que é errada, mas que nos vai trazer uma vantagem imediata, ou cumprir as normas sociais independentemente do custo que isso possa acarretar? Refiro-me, por exemplo, à necessidade de seguir, ou não, as limitações de velocidade, quando estamos atrasados para um encontro?: vale acelerar nos intervalos dos pardais, ou devemos seguir a norma mesmo sob risco de desatender um compromisso previamente fixado? Inventar uma desculpa esfarrapada para o chefe quando se deixou de cumprir uma tarefa corrente, ou simplesmente reconhecer que não teve tempo nem condições de terminar o trabalho em tempo hábil? Pequenos dilemas morais...

Mas, tudo isso faz parte das rotinas costumeiras. As interrogantes mais importantes em nossas vidas são aquelas que têm a ver com nossa vida afetiva, com os compromissos assumidos com aqueles que nos são próximos, com as escolhas que temos de fazer e que determinam, em grande medida, o quantum de felicidade de que poderemos usufruir em nossa vida adulta e responsável. O cérebro, certamente, tem muitos interrogantes, inúmeros questionamentos, mas o coração tem muito mais, infindáveis dúvidas sobre o que fazer para trazer aquele sentido de paz interior que todos desejamos desfrutar, aquela sensação de prazer sensual que nos julgamos aptos a usufruir, um sentimento de plenitude na expressão de nossas paixões: amar e ser amado são, possivelmente, duas das mais poderosas forças de que dispomos, ou que nos “invadem” naturalmente em nossa existência, junto com o sentimento de medo (ou pavor), a insegurança física, o desconforto alimentar, o instinto sexual, a raiva (ou ódio) que naturalmente aflora em situações de grande stress emocional, causadas por alguma fonte identificável de agressão física ou moral contra nossas pessoas.
Deixando de lado todas as incertezas associadas a essas circunstâncias ou situações mais estressantes, as interrogações mais importantes em nossas vidas são essas mesmas: serei capaz de amar e ser amado pela pessoa ideal, encontrarei, em primeiro lugar, a pessoa ideal, saberei corresponder às expectativas dessa pessoa, poderá ela satisfazer minhas necessidades mais importantes como pessoa singular, saberei eu preencher sua vida como um par perfeito, estou pronto para assumir os encargos e obrigações de uma relação que, a rigor, deve ser considerada exclusiva?
Mas essas são interrogações iniciais, prévias e antecedentes, se poderia dizer. O que se segue é tão ou mais importante do que aquelas: por que não fui capaz de agir de outra maneira e coloquei tudo a perder?; por que fui tão inconsciente, ou egoísta, que afastei aquela pessoa amada de mim?; como devo proceder para reparar os erros cometidos?; como voltar para trás e recomeçar em novas bases?; seria isto verdadeiramente possível, imaginável, factível?; aceitaria a pessoa amada um retorno a algum status quo ante?; seria ela capaz de me perdoar, ou estaria eu disposto a perdoar alguém que me magoou e que feriu meu coração?; como posso fazer para reencontrar a paz e voltar a viver uma vida de felicidade e de contentamento interior, que é também um compromisso moral com alguma outra pessoa?
Existem, também, as interrogações ainda mais sérias, ou dramáticas: por que não fui até agora capaz de encontrar a ‘pessoa certa’?; por que a ‘vida’ me denegou o prazer de encontrar minha cara metade?; por que é tão difícil viver o relacionamento ‘ideal’?; ou por que fui perder aquilo que já tinha, num momento de puro egoísmo ou de completa desatenção com as necessidades daquela companhia? Estas são questões que nos colocamos em diferentes momentos da vida, interrogantes que todos nós, e cada um, já tivemos oportunidade de nos fazer em algum momento passado ou presente. E, também, não sabemos ao certo ser teremos de fazer as mesmas questões, ou seus equivalentes funcionais, em algum momento do futuro...
As mesmas questões também se colocam em sentido assimétrico, isto é, não diretamente relacional. São inúmeros os casos, talvez a maioria, em que o objeto do amor, da paixão, da sedução ou da conquista, qualquer que seja o termo apropriado, não está vinculado ao seu ponto de origem, isto é, não obtém correspondência direta. São os casos clássicos do triangulo, ou quadrilátero (ou polígono) amoroso: João que amava Maria, que amava José, que amava... Tudo isso é muito complicado, e só podemos nos colocar uma pergunta irrespondível: por que as coisas têm de ser assim e não de outra forma?; por que somos capazes de fazer mal, involuntariamente, a quem nos ama, sem que sejamos capazes de reparar esse mal, ou de encontrar, em outra situação, uma compensação, parcial que seja, ao nosso próprio sofrimento da lacuna aferida?; por que o destino, ou a fatalidade, nos prega tantas surpresas?

Não existem, obviamente, respostas fáceis, ou sequer possíveis, a todas essas questões. Nem sei se vale a pena colocá-las, já que elas não cabem num mini-tratado e constituem, mais propriamente, o livro mesmo da humanidade: imenso, interminável, contraditório, frustrante e cheio de realizações notáveis como a vida mesmo. Nenhuma ‘teoria dos sentimentos morais’ – para retomar o título de um dos livros do singular personagem social que foi Adam Smith – pode preencher ou eliminar as lacunas e dúvidas de nossa existência, que são ou estão ligadas nosso lado afetivo e amoroso. Não tenho a pretensão de esgotar ou de sequer aflorar todos os matizes do imenso painel de incertezas e interrogantes que constitui o coração humano. Mesmo tirando o coração do jogo – para os muitos materialistas – resta a química inescrutável de nossos neurônios, uma combinação provavelmente mais numerosa do que o número de objetos estelares, uma equação única e sempre mutável, posto que amamos e ‘desamamos’ sem qualquer regra ou compulsão pré-determinada, sem qualquer ordem racionalmente identificável. Ou seja, as interrogações continuam em número infinito em quaisquer circunstâncias...

Como não pretendo fazer deste ensaio interrogativo mais uma derivação de meu mini-tratado das reticências e como não pretendo que ele seja lido nas entrelinhas, prefiro, talvez, terminar o meu texto com algumas certezas pessoais que podem – ou não, a interrogante é de rigor – ajudar-nos a viver uma existência melhor com todas as questões que subsistem, são criadas de modo contínuo e continuarão a freqüentar a nossa existência pelo tempo disponível: se quisermos, essas minhas certezas constituem a minha ‘teoria dos sentimentos morais’, sem que eu deva copyright ou moral rights a quem quer que seja.

Acredito, sinceramente, que devemos pautar nossa existência por uma ‘lei’ da utilidade moral: fazer tudo aquilo que desejaríamos que outros nos fizessem, o que é velho como o cristianismo ou budismo, para ficar em duas filosofias de vida – não as considero como religiões, na perspectiva aqui retida – amplamente aceitáveis no plano moral ou social. Mais do que isso: devemos esforçar-nos para tornar a vida de outros ainda melhor, no plano dos confortos pessoais e materiais, do que aquela que nos foi dado contemplar ao tomarmos contato com essas relações voluntariamente aceitas, como parte de nossa existência. O bem que poderemos trazer aos seres que nos são próximos nos fará sentir uma satisfação superior à da própria perseguição de prazeres individuais, ainda que o egoísmo em causa própria não deva ser considerado sempre como um sinal de mesquinhez ou auto-suficiência: somos ‘mandatados’ naturalmente para buscar nossa felicidade pessoal, e isso implica algum egoísmo, sem dúvida.
As ‘injustiças’ cometidas contra nós nem sempre são o resultado do acaso ou derivadas da vontade unilateral de algum agente, mas podem ter a ver, justamente, com nossos pequenos egoísmos na vida cotidiana, nossas desatenções e equívocos – alguns deles cometidos de modo involuntário – que infligimos a outros muitas vezes sem perceber. As frustrações que experimentamos estão sempre colocadas num contexto relacional e, pelo menos em parte, ainda que minimamente, derivam de alguma ação anterior que conduzimos de modo leviano ou impensado. Por isso devemos ser o máximo tolerantes com os pequenos – alguns grandes – problemas criados num ambiente relacional, e tentar ver esse problema também da perspectiva da outra parte.
O mais importante, talvez, seja o ato de ‘ser bom’, qualquer que seja o significado que possamos dar a essa atitude ou postura. Ser bom nem sempre é ser caridoso, compassivo, benemérito. Significa, simplesmente, olhar para os outros e ver o que poderíamos fazer de bom, ou de útil, que melhore a vida humana sobre a terra, por mínimo que seja o gesto, por insignificante que seja o esforço: vale a motivação interior.
Tudo isso, evidentemente, tem mais a ver com algumas poucas certezas morais do que com as grandes incertezas no amor, ou no afeto, onde as interrogações permanecem ‘incuráveis’, se ouso dizer. Na verdade, o amor é um bem raro, algo extremamente raro para ser mais exato, ainda que ela se apresente e desapareça com muita facilidade de trânsito, se me permitem a expressão. Sendo raro, ele preenche aquela condição que os economistas estabelecem para a escassez relativa de bens: um valor de uso muito apreciado, mas um valor de troca bastante elevado, impossível de ser claramente posicionado nas curvas de oferta e demanda. Para ser mais exato, não há equilíbrio de mercado nessas coisas do amor, daí as questões e interrogações ainda maiores do que aquelas normalmente colocadas em situações de insuficiência de oferta e procura ilimitada. Curva, linha reta, parábola, linha elíptica de tendência, U, V, L, todas as posições e direções são possíveis no amor e não existe equação ou função capaz de apreender o comportamento de ‘elusive good’ e responder a todas as dúvidas do ‘consumidor’ (ou ‘produtor’) de amor. Somos parte interessada e estamos sempre nas duas pontas da equação, daí a sensação de uma equação que ‘não fecha’.
De certa forma, isso é natural, mas a verdade é que simplesmente não sabemos como fechar essa equação, toda ela dominada por imponderáveis, ambigüidades, incertezas, indefinições, enfim, interrogantes e questões não respondidas...
Assim é, e assim sempre será nestas matérias, para as quais nenhum mini (ou grande) tratado oferece conforto ou refúgio. Não tenho nenhum problema em reconhecer que este meu texto oferece muito mais interrogantes do que certezas, mais dúvidas do que respostas prontas, e ele é muito menos um ‘tratado’ – ou seja um corpo coerente de doutrina, com definições e respostas precisas – do que um livro aberto aos questionamentos. Mas é também verdade que, qualquer abordagem de um problema determinado deve começar, metodologicamente, por colocar, se não todas as questões, pelo menos as boas questões. Quanto ao esforço de síntese, ou o trabalho de responder a todas elas, isso fica para o paciente esforço monográfico para esgotar o problema em questão: como não pretendo fechar nenhuma questão, e tenho minhas próprias interrogações sobre todos os problemas aqui discutidos, fico com a proposta inicial de oferecer um rol de questões, tão simplesmente.
Esperando não ter decepcionado meus poucos leitores, termino com uma pergunta ao leitor insatisfeito: você teria feito melhor?

Brasília, 8 de março de 2009

quinta-feira, janeiro 22, 2009

14) Minitratado das entrelinhas - Paulo Roberto de Almeida

Minitratado das entrelinhas
Paulo Roberto de Almeida

Quote:
Sempre me encantaram as entrelinhas. O que não está posto é que encerra a possibilidade, o sugerido é que comanda a liberdade de interpretar. Uma reticência bem colocada, por exemplo, é capaz de acomodar os ânimos mais opostos. Penso que a um diplomata se deve ensinar tanto a arte-manha das palavras quanto a dos silêncios. Assim como devemos, na religião, reservar um espaço ao Mistério, forçoso, entre as linhas, reservar um horizonte em branco, ou no máximo pontilhado...
Unquote.

Tratados, em geral, costumam ser solenes, como convém aos grandes textos declaratórios, escritos em tom impessoal e devendo refletir alguma realidade objetiva, uma relação entre Estados, um contrato entre as partes, com deveres e obrigações compartilhados e estritamente observados pelo tempo previsto de duração. Eles são, se podemos dizer, o retrato de uma relação de confiança, fundada na boa-fé, pensada para construir algo de positivo para todos aqueles que por eles decidem se obrigar e, por isso mesmo, tão carregados de certezas quanto desprovidos de ambigüidades. Eles devem, sobretudo, ser lidos literalmente, com perdão pela redundância, sem qualquer distorção de sentido ou de intenção, ou pelo menos deixando um espaço mínimo para as interpretações (que fazem a alegria dos advogados, mas o desespero dos juízes).
Minitratados, por suposição, deveriam ser versões reduzidas de seus irmãos maiores, contendo um mínimo de disposições num espaço restrito, mas este não é o caso dos meus mini-tratados, cuja função é exclusivamente para falar de sentimentos. Anos atrás, ao inaugurar a série, escrevi um minitratado das reticências (subtítulo: “em defesa de uma inutilidade necessária…”), que especulava, na verdade, sobre as indecisões da vida, os episódios de ambigüidade relacional que, vez ou outra, sempre enfrentamos, com bom humor ou com preocupação, mas que são inevitáveis em toda trajetória sentimental. (Ver esse primeiro minitratado num dos meus blogs, neste link)
As reticências, em todo caso, são mais fáceis de serem manipuladas do que as entrelinhas. Afinal de contas, elas podem ser jogadas aqui e ali, no meio ou no final do texto, segundo a vontade exclusiva do autor, um pouco para demonstrar suas pequenas continuidades descontínuas... Elas talvez funcionem como as crases, que, no dizer de Millor Fernandes, não foram feitas para humilhar ninguém, apenas estão ali para ajudar em caso de necessidade. As entrelinhas, por sua vez, podem existir ou não e todo o problema consiste em saber se elas estão, de fato, ali e o que podem fazer por nós. (Bem, mas talvez eu as esteja confundindo com as reticências...)
No caso das entrelinhas, seu principal problema, justamente, é que elas se escondem entre as linhas do texto, capciosamente, e não é fácil adivinhar o que, de verdade, elas estão querendo dizer. Tudo depende da interpretação que se pretende dar ao texto. Mas, pensando bem, se o texto é do próprio, ele pode “colocar” suas entrelinhas onde bem entender, certo? Nada, absolutamente nada, na vida de um mero redator de linhas tortas, na de um escrevinhador de ensaios surrealistas, ou mesmo na de um diplomata responsável por convenções e tratados, nada deveria impedir esse senhor da escrita de depositar (ou até de jogar) suas entrelinhas onde bem entendesse.
Bingo! Aí está a grande utilidade das entrelinhas: elas permitem, justamente, que possamos retirar de um texto texto qualquer aquilo que pretendemos, elas nos dão uma liberdade fundamental: a de ler um texto onde não existe nenhum texto, apenas a imaginação.
Bingo bis! Está aí: as entrelinhas nos libertam da rigidez dos contratos formais e daqueles compromissos muito estritos. Elas “estão” ali para nos dizer: aproveite, rapaz, levante os olhos desse texto chato e deixe voar a sua imaginação. Como diz a minha epígrafe bem escolhida, elas encerram uma possibilidade, sugerem a liberdade de interpretar, são capazes de acomodar os ânimos mais opostos... (ops, sem querer voltei às minhas reticências...).
Acredito que o autor (ou a autora) da epígrafe refletiu muito sobre a vida, seus contornos, seus retornos, suas surpresas e seus imponderáveis. Ele (ou ela) pode estar querendo dizer algo com seu minúsculo tratado sobre as entrelinhas. Deve ser alguém com experiência no manejo da palavra escrita e, sobretudo, dos sentimentos, seus e os alheios. Deve ter dedicado muitas linhas ambíguas a um amigo distante ou fora do seu alcance, momentaneamente. Refletiu muito sobre a vida e o coração, certamente...
A mim, também, como ao/à epigrafista, sempre me encantaram as entrelinhas. Curioso que, ainda antes de ter recebido as palavras em epígrafe, de uma maneira que agora me escapa, eu já tinha planejado escrever o meu mini-tratado das entrelinhas, precedendo uma poesia sobre os dois pontos e um mini-conto sobre o ponto e vírgula (todos eles sinais ambíguos, como o leitor há de perceber, promessas de algo mais, janelas para rotas ainda não determinadas, abertura para possibilidades imensas de dúvidas e de reflexões...). Eu ainda não tinha o formato definitivo deste novo mini-tratado, mas pretendia que ele fosse tão “obscuro” quanto o primeiro, das reticências, tão cheio de promessas quanto um travesssão de diálogo, tão aberto às confusões da mente quanto um salto de parágrafo, tão surpreendente quanto uma exclamação e tão questionador quanto um ponto de interrogação. Sou um diacrítico da escrita...
Pois eu fiquei muito meses parado, como que dominado por um ponto final, até que o/a epigrafista socorreu-me com suas frases esclarecedoras. Abriu-se todo um novo capítulo e eu resolvi escrever este texto, que, se não tem bem a forma de um mini-tratado, pretende pelo menos retomar a tradição dos diálogos peripatéticos, uma conversa com um interlocutor qualquer, que nos acompanha por um breve momento em nossa trajetória de pensamentos e reflexões. Uma rota ainda aberta, espero...
No silêncio de uma tela de computador, também há um pouco do mistério que ficou para trás, experiências que deixaram suas marcas em nossas mentes, sensações que ocuparam por alguns momentos nossos corações (ou que ainda estão lá...). São esses estados de espírito que estão presentes nas entrelinhas: eles não são visíveis, mas estão ali para os que sabem ver e sentir...
Na verdade, como sabem os cartógrafos, geógrafos, topógrafos e, em especial, os poetas, o horizonte é uma linha elástica, que recua cada vez que nos aproximamos dela. Sua paciência é infinita, assim como são infinitas as possibilidades abertas pelas entrelinhas... (ainda mais com reticências, desculpem a insistência...).
Eu queria dizer ao/à epigrafista involutário(a), que ele(a) muito me ajudou na tarefa de juntar minhas poucas idéias sobre as entrelinhas. Sem os conceitos ali transcritos eu jamais teria descoberto o poder secreto das entrelinhas, talvez eu nunca me decidisse por escrever este texto, todo ele feito nas entrelinhas. Não sei se ele será capaz, como escrito na epígrafe, de acomodar ânimos opostos, mas ele certamente ajuda a construir um cenário de mistério, um horizonte de esperança, uma promessa não cumprida. Eu consigo ver, nas entrelinhas deste meu texto, possibilidades ainda não exploradas, sugestões nunca realizadas, sonhos muitas vezes sonhados e ainda não acontecidos, pelo menos, até agora. Mas isto nada prejulga quanto ao futuro...
É tudo o que se espera, aliás, de um mini-tratado sobre as entrelinhas...

Brasília, 22 de janeiro de 2009.

sábado, janeiro 03, 2009

13) Um questionário auto-aplicado

ou autoaplicável…
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 3 de janeiro de 2009

Inspirado em exemplo similar que teria sido composto por Marcel Proust, como jogo de salão – embora alguns atribuam sua paternidade original ao poeta Mallarmé – resolvi aproveitar esta época do ano, apropriada para balanços, confissões, revelações e outros jogos de sinceridade, para também compor, e já responder, a um pequeno questionário cujas perguntas eu mesmo selecionei, ou formulei, com base em minhas preferências pessoais.
Quem desejar pode responder à vontade a este meu questionário, ou formular o seu, individualizado, com suas próprias perguntas, adaptadas a seu gosto ou à sua visão do mundo. Esta é a minha, e estas são as minhas respostas, que acredito sinceras. Mas, como sabemos todos, sempre somos induzidos ao auto-engano, à complacência com nossas próprias falhas e vícios, a uma versão mais benigna de nossas características e à exaltação de nossas qualidades, enquanto escondemos os lados menos enaltecedores de nossa personalidade (que seja, épocas de avaliação permitem essas liberdades…).

1) O que você considera ser felicidade?
Poderia ser simples, e dizer apenas isto: ficar numa rede, lendo bons livros (e sendo servido, claro). Complicando um pouco (e querendo, talvez, passar por altruísta ou magnânimo), eu diria que felicidade seria: viver num mundo de paz, sem carências materiais, sem conflitos de qualquer tipo, sem grandes aspirações que não a faculdade de poder desfrutar de um ambiente de cordialidade, de inteligências, de plena liberdade para a expressão do pensamento, de trocas positivas em todas as direções, de certeza que podemos contribuir positivamente para o bem estar de todos e a elevação espiritual da humanidade, permitindo a todos que usufruam à sua maneira de bens materiais, sem que isso se faça em detrimento de outros, ou da capacidade de todos de também poderem aspirar à realização de seus desejos.
Acredito que algo neste sentido já tenha sido expresso na declaração dos pais fundadores da independência americana, e outro tanto se encontra na declaração dos direitos do homem e do cidadão, da revolução francesa. Modernamente, temos a declaração universal dos direitos do homem (1948), que, provavelmente (ou quase certamente), ainda não conseguiu ser plenamente realizada em todos os países e regiões. Creio, assim, que antes de inventar novos direitos econômicos e sociais, as sociedades contemporâneas deveriam esforçar-se por cumprir com aqueles compromissos. Já seria um grande progresso para a humanidade e eu ficaria sinceramente feliz…

2) Onde você gostaria de viver?
Em vários lugares, mas suponho que seja impossível reunir todas estas bondades num único local: uma pequena cidade ao estilo europeu, densa de história, com velhas casas e ruelas entrecortadas por algumas avenidas modernas, restaurantes tão bons como se pode encontrar em pequenas cidades da Itália, com queijos franceses, vinhos brancos alemães, bibliotecas tão boas quanto as americanas, servidas por redes rápidas de acesso a tudo o que a humanidade já produziu de útil em dez mil anos de civilização, dispondo pessoalmente de algum carro médio (talvez japonês), para poder viajar em auto-estradas confortáveis, mas também por pequenas estradas vicinais arborizadas, podendo parar em lugares agradáveis para praticar gastronomia e cultura, de modo geral.
Também faria parte desse local imaginário algumas praias tão boas como as que temos no Brasil (embora eu não seja de praia, preferindo ficar à sombra, lendo livros com água de coco ao lado), com um povo tão simpático quanto parece ser o nosso, sem trombadinhas e outros assediadores ou amigos do seu patrimônio (que não precisa ser muito, apenas um cartão de crédito, que permita o suficiente-supérfluo). Acrescento uma ou outra montanha aqui e acolá, para o inverno, planícies verdejantes que abram a imaginação para nos incitar a escrever alguma história simpática, além de alguns rios caudalosos que sempre nos atemorizam e atraem. Topografia à la Disney, claro, sem mosquitos, moscas, formigas e outros seres incômodos, só bichinhos simpáticos…
Supondo-se que exista esse lugar (mas ainda não encontrei), imagino que ele seja facilmente disponível quando se tem tempo e dinheiro para construir os seus vários cenários ideais (o que nos remete à inevitável questão dos meios materiais e paciência para enfrentar muitas viagens de avião, indo de um lugar a outro). Imagino também que o futuro vai nos trazer um pouco de tudo isto, ao alcance de um click de computador, mas sempre será preciso deslocar o esqueleto de um lugar a outro deste nosso planeta encantador (depende do local, claro…).

3) Para que tipo de falha você é mais indulgente?
Para aquelas que não resultam de um ato deliberado do ser humano, mas que decorrem de um erro de julgamento, de avaliação, de um equívoco involuntário. Ainda assim, acredito que determinadas falhas humanas causam imenso prejuízo social e por isso teriam de ser sancionadas de alguma forma por uma instância independente de julgamento e sanção, pois sempre devemos assumir responsabilidade por nossos atos, mesmo os involuntários.
As fraquezas da paixão são, em geral, mais perdoáveis, pois se trata de uma química ainda não completamente dominada pelos seres humanos – se é que algum dia o serão – mas isso não implica em coonestar prejuízos materiais ou psicológicos infligidos a alguém por força de alguma paixão incontrolável. Volto a dizer que todos somos responsáveis por nossos atos e a compulsão dominadora não poderia a esse título ser sancionada, por ser simplesmente desprezível.

4) Que qualidades você admira no homem ou na mulher?
Difícil distinguir, sobretudo em nossos tempos de politicamente correto, quando o sexismo é seriamente condenado. Digamos que a melhor qualidade, em ambos, é a capacidade de ser bom, ou seja, de contribuir para o bem geral, sem qualquer distinção de condição. Ser bom significa viver para algo mais elevado do que a própria satisfação material ou espiritual de seus desejos individuais, mas preocupar-se com a sorte de outra pessoa, de qualquer outra pessoa. Significa algo mais do que simplesmente não causar mal a alguém, significa ativamente perseguir o bem e a felicidade para todos, a começar por si próprio e para os que nos são próximos.
Ser tolerante é uma outra qualidade indispensável, posto que todos somos falhos, em condição física, em caráter, em disposição para fazer um esforço adicional em prol do bem comum referido acima. Ser tolerante sobretudo com os que pensam diferente de nós, em tempos de fundamentalismos e fanatismos de várias espécies. Isso não inclui, obviamente, o relativismo moral ou cultural, pois acredito, sim, que existam valores que são universais e permanentes, e que devem ser acatados por todos. Os sacrifícios humanos, está claro, já não estão mais na moda, mas permanecem vários fanatismos de natureza religiosa ou racial, que cabe combater com o devido rigor. Acredito, sim, que devemos ser preventivos no combate ao mal, e isto inclui ser absolutamente intolerante com a intolerância: se Hitler tivesse sido contido no devido momento, não teria sido capaz de causar tantos sofrimentos a tanta gente. Mas, eu esqueço, talvez, da horda de ditadores, de todos os matizes, que já assolaram a humanidade desde sempre, cuja principal característica era justamente a intolerância com o pensamento alheio. Por isso acredito que a tolerância deve ser por vezes imposta a quem é intolerante, e isso eu também reputo como qualidade, a coragem de impor a tolerância…
O culto da inteligência é uma outra qualidade que admiro, em qualquer ser humano, sem que eu saiba exatamente dizer o que isto significa: provavelmente ter uma mente aberta a todos os aprendizados, a qualquer momento, saber rever suas concepções e argumentos, com base em novas evidências da realidade, em novas pesquisas, em um estudo aprofundado de qualquer problema que seja. Soluções simplistas não são apenas rápidas e mal feitas, elas podem causar danos irreparáveis, sem que se possa controlar a aplicação de qualquer medida com base numa avaliação ponderada de seus possíveis efeitos de curto e mais longo prazo. Como se diz: para cada questão complexa, sempre existe uma resposta simples, e geralmente equivocada. Devemos, por isso mesmo, cultivar o dom da inteligência, que talvez seja inata, mas que também pode ser construída, com base em esforço, persistência e honestidade intelectual.
Aliás, esta última qualidade é a que mais admiro em qualquer cidadão que fez do trabalho intelectual o seu ganha-pão: acima dos sucessos eventuais, dos benefícios materiais de sua atividade, está a honestidade quanto aos procedimentos, quanto à exposição dos resultados, quanto ao uso de argumentos racionais em apoio às suas teses ou em defesa de suas opiniões. Além de evidências concretas, todos temos direito a ter opiniões: elas apenas precisam ser expostas de forma clara e objetiva, como opiniões, justamente, não como artigos de fé…

5) Qual a sua ocupação favorita?
Sinceramente, acredito que talvez fosse não ter ocupação, justamente, mas talvez isso resulte em algum aborrecimento. Ficar flanando pelas cidades do mundo, poder fazer o que quiser a qualquer momento, talvez seja o ideal para qualquer pessoa que aprecia as coisas boas que a humanidade já produziu em séculos. Mas, justamente, sem considerar o problema dos meios materiais – supondo-se, no exemplo acima, que você disponha dos meios suficientes para ficar “flanando pelo mundo”, sem lenço, mas com documentos e um bom cartão de crédito –, o mundo nunca teria essas maravilhas para serem admiradas e visitadas sem algum tipo de compulsão ao trabalho, sem algum tipo de exploração do homem pelo homem, sem a competição que resulta de uma ambição qualquer ou o desejo de emular quem está melhor do que você mesmo, na disposição de bens materiais, no acesso à cultura ou à satisfação intelectual ou espiritual (o que se considera ser isso, em todo caso).
Portanto, todos temos ocupação, seja como independentes ou assalariados. Ser do primeiro time, isto é, independente, é para poucos, pois o empreendedor arrisca muito do que é seu para construir um patrimônio que o coloque ao abrigo, justamente, do domínio de outros (lembrando sempre, com Benjamin Franklin, que não escapamos da morte e dos impostos). A maior parte de nós prefere ter uma situação mais tranqüila, se é que se pode chamar de tranqüila a atividade “forçada” para algum patrão: existem os generosos, é verdade, as universidades e o setor público de forma geral, bem menos carrascos do que os capitalistas gananciosos, que arrancam ou couro dos empregados com algum tipo de benchmark de produtividade…
Sendo assim, melhor se dedicar a alguma atividade que combine o máximo de satisfação possível e o mínimo de preocupação necessária. Como eu não tenho esse espírito empreendedor que parece típico do capitalista – nem pretendo para mim grande remuneração financeira – a atividade que mais se ajusta a meu caráter é a intelectual, o que pode ser encontrado numa universidade ou em algumas ocupações do setor público, justamente. A diplomacia me parece ser, por acaso, a que combina o mais possível as virtudes de ambos mundos: intelectual o suficiente para me atrair, nômade na medida certa para também me atrair, a tranqüilidade da estabilidade – mas eu pessoalmente sou contra a estabilidade no setor público, inclusive na diplomacia – e a combinação de reflexão e ação na medida apropriada. Perto disso, ser professor também me agrada muito, tanto porque estou sempre aprendendo nessa ocupação, seja com os livros, novos e bons livros, seja com os próprios alunos (embora a maioria seja preguiçosa, alguns sempre se destacam pelos questionamentos e dúvidas, que nos esclarecem, também).
Finalmente, o que eu mais gostaria de ser seria leitor e crítico de livros, junto com a atividade mais séria de escritor, mas eu não tenho gêneros, exercendo-me nas mais diversas artes da escrita e da reflexão crítica. Acredito que ficarei feliz quando dispuser de mais tempo para ler, escrever, viajar, pensar, enfim, ensinar, que sempre estamos aprendendo ao ensinar…

6) Qual a seu principal defeito?
Tenho certamente muitos defeitos, alguns até mesmo despercebidos por mim, entre os quais provavelmente não se situa o “dom” da hipocrisia (ou seja, a capacidade de dizer coisas agradáveis a quem não merece). Não sei dizer exatamente qual o pior, pois isto envolveria, para uma boa resposta, realmente, uma pequena enquête entre os mais chegados e entre os menos tolerantes com os meus defeitos, pois eles certamente existem. Suponho que seja a ausência, estrito e lato senso, o que pode ser irritante em determinadas circunstâncias. Como estou sempre com alguma coisa nova na cabeça, lendo compulsivamente, ou escrevendo coisas que me vêem à mente nas mais inusitadas ocasiões. Sempre estou com um caderno de notas no bolso, o que me permite anotar qualquer coisa que intervenha em meu campo visual, auditivo ou mental. Essa capacidade em se abstrair, ou de se ausentar da realidade imediata, para penetrar no mundo das idéias, pode ser irritante para os que me cercam.
Falando assim, parece até positivo, mas o lado mais negativo dessa “ausência” é o egoísmo na leitura, e certamente minha subtração de atividades “corriqueiras”. Tenho pouca paciência para as banalidades da vida diária, desejando me concentrar apenas em coisas “elevadas do espírito”. Alguns psiquiatras poderiam dizer que isto é uma forma de “alienação”, embora eu esteja pouco ligando para a opinião desse tipo de intérprete da alma alheia. O que me interessa mesmo é ficar lendo e escrevendo, mas suponho que isto possa ser um grande defeito na vida social.

7) Quem você gostaria de ter sido?
Não imagino, atualmente, algum grande personagem histórico ou literário, que poderia me servir de inspiração ou modelo. Nunca desejei ser algum chefe militar, embora em determinada época desejasse derrubar o governo militar do Brasil pela força das armas, um pouco como no exemplo – altamente romantizado – dos guerrilheiros cubanos (que resultaram naquilo que se vê hoje, uma gerontocracia totalitária).
Talvez em algum momento um filósofo grego, estilo Sócrates ou um desses menos autoritários (Platão certamente não se encontra entre os meus preferidos, pois sempre desconfiei desses engenheiros sociais que pretendem reformar os homens e as instituições mediante iniciativas de implementação compulsória). Mas a filosofia sempre me parece algo distante das preocupações cotidianas, e o que eu queria, mesmo, era reformar o mundo, torná-lo menos injusto para os mais pobres – como minha própria família – e mais “confortável”, digamos assim, para todo mundo. Isso implica em algum tipo de atividade política, mas confesso que nunca tive nenhuma atração pela demagogia, pela mentira, pela hipocrisia típica dos homens políticos, e digo isto com bastante contenção, pois sei que nem todos são assim, e que, mesmo que eles sejam assim, a classe política, como os sacerdotes e outros vendedores de ilusão, fazem parte de nossa paisagem para o bem e para o mal (espera-se que mais do primeiro elemento).
Talvez tivesse querido ser algum intelectual famoso, não pela fama em si, mas pela possibilidade de aumentar a audiência, pois acredito que eu tenha algumas coisas inteligentes ou interessantes para dizer. Não me inspiro em nenhum em particular, mas dentre os políticos com feições intelectuais que me vêem à cabeça é inevitável não citar Winston Churchill, um jornalista, político, homem de guerra e escritor que, por mais imperialista e abusado que tenha sido, contribuiu em grande medida para construir o mundo no qual vivemos hoje. Certamente que, entre o mundo de Hitler e de Mussolini, e o mundo de Churchill e de Roosevelt, este é bem melhor do que aquele, e por isso ele pode figurar no meu panteão particular (sem qualquer culto, porém, por nenhuma de suas virtudes pessoais, apenas respeito e admiração pela sua obra de estadista).
O mais importante, em tudo isso, é a obra que deixamos, e esta obra precisa estar inspirada em boas idéias. Então, eu gostaria de ter sido todos aqueles que, com suas idéias e ações, contribuíram para tornar o mundo melhor do que ele é: geralmente, as pessoas de idéias não costumam ter poder, mas podem servir, ao estilo maquiavélico, de conselheiros do príncipe (e não considero Maquiavel intrinsecamente mau, ao contrário, apenas um intelectual patriota, preocupado com a miséria política e material da Itália do seu tempo). Creio que gostaria de ter sido Maquiavel, mas sem o seu exílio miserável.

8) Qual a principal traço de seu caráter?
Antigamente, era o de ser um pretenso “agitador revolucionário”, mas isto se perdeu na noite dos tempos. Atualmente, sinceramente, não saberia dizer. Uma pessoa amiga me disse que meus olhos “expressam tão puramente um misto de bondade e de perspicácia, qualidade tão incomuns separadamente, únicas quando na mesma pessoa”. Não sei dizer se é isso, exatamente, talvez seja, se assim me vê alguém com dotes de fino analista da alma humana. Aliás, nem sei se ter a pretensão de ser um “agitador revolucionário”, seja lá o que isso queira dizer, conformava algum traço de caráter, ou uma simples aspiração passageira. Em todo caso, essa fase já passou.
A mesma pessoa que me qualificou de bondoso e perspicaz, acrescentou: “É um equilíbrio tão cristalino quanto complexo”. De fato, mesmo quando eu pretendia ser um “agitador revolucionário”, estava ocupado em estudar e me preparar para fazer algo de útil, ou necessário, não para mim, exatamente, pois o sentido era o de alguma “ação social”. Nisso talvez vá o lado da “bondade”. Quanto à minha suposta perspicácia, não sei dizer exatamente onde ela se encontra, talvez na capacidade de analisar os dados da realidade e de tentar extrair daí as melhores conseqüências possíveis, que geralmente são as de menor custo social ou individual. Trata-se aqui de um raciocínio econômico, de tipo utilitário, pois acredito sinceramente que sempre devemos buscar as soluções que maximizem insumos e resultados, numa espécie de ótimo paretiano dos fatores de produção: os meus são a minha capacidade de leitura, de reflexão, de proposição, e creio que isto configure, aí sim, um traço de caráter.

9) Qual seria o seu sonho de olhos abertos?
Escrever um livro que fosse admirado por muitos e que pudesse figurar como uma espécie de clássico do pensamento, um ícone do meu tempo. Não sei se ainda farei isto, provavelmente não, pois não me dedico à literatura ou à filosofia, onde estão, aparentemente, os “clássicos” do pensamento, estando bem mais voltado para a história e a política do Brasil. Mas, nunca se deve deixar de sonhar...

10) Qual seria um grande motivo de infelicidade para você?
Provavelmente perder o dom da leitura e o da reflexão, o que pode vir com a idade, com a cegueira, ou algum outro acidente inabilitante. Mas lembremos que Borges ficou cego relativamente cedo, e continuou produzindo durante algumas décadas mais. Pessoas cegas costumam ser muito sensíveis, e desenvolvem outras habilidades. Mas, o fato de não poder ler mais diretamente, pode representar uma grande tragédia em minha vida. Talvez existam piores tragédias na vida, mas esta seria muito ruim para mim.

11) Qual o dom da natureza que gostaria de possuir?
Bem, eu calculo que para terminar de ler todos os livros que eu gostaria de ler, vou precisar de mais uns 150 anos (estou sendo modesto) e não sei se a natureza, ou os progressos da medicina, me darão essa faculdade (essa felicidade). Suponho, porém, que outros livros interessantes venham a ser acrescentados à minha lista nesses 150 anos adicionais, o que requereria mais 150, e depois mais outro tanto, e depois... Bem, o dom da imortalidade não existe, e por isso, eu gostaria de ser organizado, o que já seria um grande progresso.
Digamos que eu deveria deixar todos os meus papéis, livros e anotações feitas ao longo do último meio século em um estado tal que possam representar alguma utilidade para outros estudantes ou pesquisadores de nossa vida política, econômica, diplomática, o que já me deixaria feliz. Então, peço à senhora “mãe Natureza” que me dê o dom da organização, para que eu um dia arrume os meus livros – sempre tão difíceis de encontrar – e ponha em ordem meus papéis e cadernos.
È um pedido certamente modesto, e não sei se a Natureza será capaz de atender (provavelmente não), mas é com ele que termino este meu questionário anárquico, como sempre foram os meus escritos e reflexões. Termino por uma última pergunta.

12) Qual é o seu presente estado de espírito?
Otimista, mas preocupado, como sempre. Sempre tenho o otimismo incurável (o que é um chavão abusado) de fazer tudo aquilo que pretendo, algum dia, mas sempre ando preocupado, porque o tempo de que disponho me parece sempre insuficiente para cumprir tudo aquilo que planejei fazer. Em todo caso, neste momento, em que estou “perdendo tempo” com este questionário, tenho dois trabalhos no pipeline e um imenso livro que planejei escrever até o primeiro trimestre de 2009. Não sei se conseguirei, mas este estado de preocupação otimista vai continuar comigo, agora e sempre...

Brasília, 3 de janeiro de 2009.

12) Sobre a complicada condição de diplomata

Algumas pessoas acham que eu escondo minha condição de diplomata, ou que eu teria alguma restrição ao fato de ser apresentado como tal.
Isso não é bem verdade, do que é prova, aliás, todos os blogs (por acaso figurando na coluna da direita) que explicitam essa condição, assim como a exigência que é feita em muitos artigos publicados de se colocar a condição profissional.
Se dependesse apenas de mim, é verdade, eu nao colocaria essa condição, ou situação, ou profissão (seja lá o que for), não por alguma restrição mental em relação a ela, mas por simples razões de validade argumentativa e proteção, justamente, contra certos rótulos que nos são impingidos de fora, a partir de uma condição declarada.
Explico-me melhor.
Eu, como todos sabem, estou sempre escrevendo e publicando, inclusive sobre temas que não deveriam, normalmente, frequentar as "aparições" públicas de um diplomata, normalmente um funcionário discreto da burocracia de Estado, respeitoso dos códigos escritos e não escritos da reserva e da confidencialidade.
Acontece, simplesmente, que quando estou desenvolvendo argumentos ou opiniões que têm a ver com aspectos mais gerais do que a simples diplomacia, ou até sobre aspectos propriamente diplomáticos, quero que meus argumentos sejam tomados pelos que eles contêm de objetivo, pela sua validade intrínseca, não pela qualidade ou condição de quem os expressa. Argumentos devem se sustentar por si mesmos, e por isso evito, sempre quando posso, mencionar essa condição quando falo ou escrevo para um público mais vasto.
Não que eu tenha preconceito ou vergonha de minha condição, na verdade são as pessoas que mantêm idéias feitas sobre determinadas categorias de pessoas. Se elas sabem ou são avisadas de que ali está um diplomata falando, podem logo dizer: "Mas esse sujeito está apenas transmitindo a versão oficial do problema, ele está defendendo essas posições porque é um diplomata chapa branca, está a serviço deste governo".
Ora isso deforma ou distorce completamente o sentido de meus argumentos. Quero que eles sejam tomados em si mesmos, sem que minha condição influencia sua recepção. Ou seja, quero que a pessoa "dona" dos argumentos seja ignorada.
Esta era, alias, a posição de Machado de Assis enquanto crítico: olhar apenas a obra, e esquecer quem escreveu.
Acho que me fiz claro...

quarta-feira, dezembro 31, 2008

11) Um balanço de final de ano, com alguma explicação para tal...

Pouco tenho freqüentado este blog, sei disso, que foi foi feito, digamos assim, para reflexões pessoais, algo que ocorre quando temos tempo e lazer de sentar e pensar no que foi feito e no que ainda resta a fazer.
Como tenho estado envolvido, talvez demais, com trabalhos "práticos", acabo deixando esse tipo de atividade intelectual de lado.
Bem, fim de ano é o tempo dos balanços e das reflexões. Portanto, cabe agora este trabalho que segue abaixo.

Um balanço de final de ano, com alguma explicação para tal...
Paulo Roberto de Almeida
(www.pralmeida.org; pralmeida@mac.com)
Em 31 de dezembro de 2008

A cada final, ou começo, de ano, somos todos tentados a empreender uma espécie de balanço do ano que se passou e a estabelecer algum tipo de planejamento, ou agenda de trabalho, para o ano que se inicia. Isto é próprio desta época, pois a maior parte das pessoas e empresas segue o calendário anual, gregoriano no caso de nossas sociedades ocidentais, para fins de balanço periódico, para contabilidade (e eventual distribuição de lucros), para estoque patrimonial, levantamento de ativos em caixa, ou seja lá o que for.
No que me concerne, não tenho dividendos a distribuir, nem saldos a contabilizar, ou dívidas a pagar – a não ser a rotação normal dos cartões de crédito – e muito menos teria contas a prestar a alguém, a não ser à minha família e minha própria consciência. Sou um ser livre, tanto quanto permitido pela minha condição de funcionário público, de professor universitário e de colaborador voluntário, regular ou ocasional, para uns tantos pasquins eletrônicos que insistem em me ter como escritor anarco-literário. Mas, essa “prestação de contas” eu posso fazer se desejar, pois ninguém irá me cobrar nada se não o fizer. Esta condição que exibimos, de pessoas livres em sociedades livres, é algo relativamente novo na história da humanidade, tendo se consolidado apenas a partir do Iluminismo europeu e do constitucionalismo contemporâneo, sendo ainda desconhecida em determinadas sociedades (felizmente, cada vez em menor número).
A rigor, só posso empreender um balanço de meus trabalhos escritos, pois esta é, talvez, a parte mais visível de minha atividade pessoal, a que mais me engaja, me cativa e me atrai, em sua simplicidade aparente. Toda a minha vida consciente – não sei bem quando começou – tenho sido um observador da realidade, como qualquer outro ser humano, aliás. Toda a minha vida “literária” – que começa na tardia idade de sete anos – tenho sido um leitor compulsivo, um devorador de todo e qualquer papel manuscrito ou impresso, de todo e qualquer livro ou periódico, assim como um espectador menos fiel dos meios de comunicação audiovisuais. Toda a minha vida de “escrevinhador” – creio que a condição se aplica, mas não sei bem quando ela começou – tenho sido um gastador intensivo de lápis, caneta, papel e, desde alguns anos, um produtor compulsivo de bits and bytes, que é como todo mundo, agora – com exceção dos “conservadores” – se manifesta e se expressa para o mundo e para si mesmo.
Pois bem, e o que diria este balanço da minha produção intelectual em 2008? OK, vejamos as contas, agora. Estou fechando este ano de 2008 justamente com este texto, que leva o número 1969. Constatando que comecei este ano que agora termina com o trabalho 1848, isto perfaz, segundo uma aritmética elementar, exatamente 121 trabalhos – em todas as categorias, isto é, ensaios, resenhas, capítulos de livros, ou livros inteiros – o que pode ser visto de diversas formas. Isto representa um trabalho a cada três dias, aproximadamente, não considerando o volume, ou seja, o número de páginas de cada um dos textos (pode ser uma única página, para algum esquema de trabalho, a várias dezenas, ou mesmo mais de uma centena, para outros trabalhos) e o total. Esse tipo de contabilidade “produtivista” eu posso fazer depois, quando tiver tempo e disposição para tanto. Por enquanto, fiquemos num balanço qualitativo, ou em uma explicação.
O que importa mais, neste momento, seria a questão de saber para que serve tudo isto, ou seja, qual o sentido da minha produção aparentemente exagerada? Não sei dizer, sinceramente, apenas confirmo que tenho especial prazer em ler e escrever. Ainda hoje terminei a leitura de um livro – A Splendid Exchange: How Trade Shaped the World, de William J. Bernstein – e, por essas maravilhas dos meios de comunicação modernos, troquei quatro ou cinco mensagens eletrônicas com o autor, um financial theorist and historian (segundo a informação da orelha), que vive em North Bend, estado do Oregon (USA). Escrevi-lhe a propósito de uma simples nota de rodapé que me pareceu bizarra, e daí tive que buscar o meu Marx na prateleira para confirmar aquilo que eu imaginava: a citação do Miséria da Filosofia só se aplicava por causa de uma exigência de Engels para a edição alemã do livro, sendo que a referência original era um simples discurso de Marx na Associação Democrática de Bruxelas, em janeiro de 1848 (acho que o meu marxismo ainda anda afiado, se me permitem os saudosistas...).
Sim, mas qual é o sentido de tudo isto, volto a questionar? Continuo sem saber responder adequadamente, apenas sugerindo que se trata de uma “segunda natureza”, um vício incurável – mas não transmissível, imagino – que me leva a passar a maior parte do meu tempo livre – variável segundo as circunstâncias e obrigações outras – nos atos da leitura, da reflexão e da escrita. And what for?, para qual objetivo, pergunto?
Em primeiro lugar, para minha própria ilustração e satisfação intelectual, suponho, ainda que tal vício possa ser doentio, alerto os possíveis incautos. Quem possui esta gentle madness, esta loucura benigna da leitura e da escrita não pode ser totalmente normal, imagino, mas tampouco é o caso de internação e tratamento compulsório, pois se supõe que pessoas assim não venham a causar grandes males à humanidade, ao contrário. No meu caso, sou totalmente inofensivo, pois costumo ficar no meu canto, aliás vários cantos – o que compreende livrarias, bibliotecas, bares, restaurantes, carro, cama e outros ambientes –, quando estou lendo alguma coisa, o que quer dizer o tempo todo. Quando não estou lendo, estou anotando, ou escrevendo, a mão ou no computador, invariavelmente. Ou seja, trata-se de uma insanidade leve, não nociva aos demais, a não ser aos que se irritam com este meu alheamento temporário, o que pode compreender colegas de trabalho, família, cachorro e até o trânsito, circunstancialmente (sim, de vez em quando leio enquanto estou dirigindo, mas tomando o devido cuidado, claro).
Em segundo lugar, para ilustração dos outros, de colegas, amigos, alunos, curiosos e até desconhecidos, suponho, posto que meus trabalhos são todos divulgados em meios públicos (bem, nem todos). Ao lado desta loucura da leitura e da escrita, tenho o hábito reincidente de ensinar, ainda que esta não seja a minha principal condição profissional. Acontece que, voluntariamente ou expressamente a convite, tenho assumido atividades docentes, à margem ou simultaneamente à minha profissão oficial, atualmente – devo dizer, desde 30 anos – de diplomata. Assim, leio para mim e para os outros, o que quer dizer que coloco no papel o que aprendo nos livros e outros textos publicados. Mas o que explica essa mania de ler e publicar um pouco de tudo, volto a perguntar?
A razão é muito simples: venho de uma família muito modesta, de pais que sequer chegaram a terminar o ensino primário; se tratava, portanto, de um lar onde os livros não abundavam, ao contrário. Meu primeiro contato com os livros se deu numa biblioteca infantil, que por uma dessas felicidades infinitas ocorria de existir próximo à casa de minha infância. Freqüentei-a antes de aprender a ler e continuei freqüentando-a enquanto pude, até meus anos de curso médio, em São Paulo. Devo, provavelmente, a esta biblioteca – Biblioteca Pública Infantil Anne Frank, do bairro do Itaim-Bibi, que se registre – tudo o que sou atualmente, ou quase tudo. Talvez nem tanto a ela, pois outro poderia ser o instrumento desta minha loucura pela palavra impressa, mas certamente à minha própria compulsão (que não considero inata) pela leitura e pela escrita. Sou capaz de lembrar títulos e capas de vários livros que li na Anne Frank, inclusive um chamado, justamente, A Palavra Escrita, do crítico literário Wilson Martins. Tenho de passar lá um dia, para ver se consigo fazer uma lista completa de minhas leituras de infância.
Depois de adquirido esse vício incurável (pelo menos para mim), passei a ler em toda e qualquer circunstância, adquirindo também o hábito de fazer anotações dessas minhas leituras. Mais tarde, quando se fixou em mim a consciência absolutamente fiel e verdadeira de que tudo o que sou devo à leitura e à reflexão crítica – pois poucos eram os outros meios para minha elevação social, a partir do meio em que vivia – passei a ter também o desejo, não tão secreto, de interessar outros por essa mesma loucura gentil. Sempre recomendei livros e sempre presenteei pessoas com livros. Sim, me arrependo amargamente de também ter emprestado livros a quem não merecia, pois sou capaz de lembrar, ocasionalmente, de um ou outro livro perdido com esses depositários infiéis. (Curioso que, tendo feito tantos cadernos de anotações de livros, eu nunca tenha feito um para anotar meus empréstimos a terceiros, o que sempre lamento quando vou buscar um livro que não encontro em minhas estantes abarrotadas.)
Bem, continuando nossa história de balanço. Em terceiro lugar, minhas leituras e meus escritos servem, sobretudo, a dois objetivos maiores. Por um lado, me permitem fixar uma espécie de síntese do que vou aprendendo e consolidando como conhecimento útil. Por outro, os escritos me permitem transmitir a outros aquilo que aprendi, não por exibicionismo pueril, mas por imaginar – talvez ingenuamente – que os outros também estejam interessados em se enriquecer intelectualmente e em ampliar seu domínio sobre o mundo. Sempre estou supondo que os homens (e as mulheres, obviamente) sejam seres racionais, e que eles estejam motivados em dar um significado maior a suas vidas, que não o simples ato de trabalhar, satisfazer necessidades básicas e depois se aplastar frente à TV para repousar. Provavelmente não é bem assim, mas nunca desisto de meus intentos sorrateiros de – sem qualquer pretensão megalomaníaca – contribuir para a “elevação espiritual da humanidade” (com perdão pelo chavão já gasto). Como eu me fiz dessa forma, fico imaginando que as outras pessoas também aspirem aos mesmos nobres objetivos (aqui, sem qualquer pieguice).
Em todo caso, tenho para mim que sempre devemos trabalhar para deixar um mundo melhor do que aquele que encontramos ao nascer. O mundo hoje é certamente melhor do que aquele que meus pais conheceram e o que eu mesmo encontrei em minha infância. Lamento, sinceramente, que os jovens da minha condição, atualmente, não disponham mais da mesma escola de qualidade que foi a minha, no sistema público do final dos anos 1950 e início dos 60. Com todas as suas deficiências, essa escola pública me permitiu, com o complemento de minhas leituras em biblioteca – e certamente muito esforço individual, no estudo auto-assumido –, ingressar, exclusivamente pelo mérito, em uma universidade de qualidade, o que imagino seja virtualmente impossível a um jovem de condição modesta, em nossos dias. Outro de meus objetivos, através dos meus escritos e aulas, é, portanto, tentar devolver à sociedade aquilo que dela recebi, em meu tempo, através dos meios públicos de ensino e formação literária. Tento fazer a minha parte, justamente por meio da divulgação pública de meus trabalhos e leituras.

Voilà: creio que meu balanço e a minha explicação agora estão feitos, e posso, assim, encerrar o ano com este trabalho de avaliação pessoal e de “prestação de contas”, em primeiro lugar para mim mesmo. Não precisava, mas é também uma forma de olhar para trás e constatar o muito que já foi feito, e o muito que ainda resta a fazer.
Sim, pelo lado do planejamento, vejamos o que eu poderia me fixar como agenda auto-assumida de trabalhos. Bem, no pipeline imediato de trabalhos prometidos e até agora inconclusos – e que passam, assim, para a lista de working files de 2009 – estão um ensaio sobre o regionalismo sul-americano (em francês) e algumas resenhas curtas para o boletim da Associação dos Diplomatas (onde assumi a seção “Prata da Casa”), além de uma ou outra resenha prometida a amigos e conhecidos (editores graciosos). Depois disso, vou me fechar um pouco, pois pretendo terminar o segundo volume de minha história da diplomacia econômica no e do Brasil, que deveria estar concluído há muito tempo (mas sempre vamos postergando “grandes obras”, e assumido “pequenas”, ou mais fáceis). Depois? Bem, ainda tem o terceiro volume, mas isto pode ficar para depois, bem depois (ainda planejo mais uns vinte livros nos próximos vinte anos...).

Finalmente, gostaria de agradecer, formal e expressamente, a todos os amigos, colegas de trabalho, familiares, conhecidos e correspondentes desconhecidos, com quem tenho interagido utilmente (por vezes até inutilmente) no período recente, e que me têm abastecido de livros, notícias, informações úteis ou bizarras, que me alimentam no esforço de reflexão e na preparação de meus trabalhos. Espero, da mesma forma, ter sido útil a tantos colegas e amigos, e aproveito para desejar a todos um ótimo 2009. Até o próximo encontro, neste mesmo local e momento do ano.
Felicidades a todos!

Brasília, 1969: 31 de dezembro de 2008.

quarta-feira, dezembro 03, 2008

10) Uma definicao generosa de minha essencia: um diplomata estudioso

Uma pessoa amiga me mandou uma mensagem muito simpática, que creio expressa um pouco de minha essência.
Sem qualquer espírito de auto-elogio, permito-me transcrevê-la aqui, para posterior reflexão e comentário:

"Paulo Roberto,
Para mim, o que te dá um brilho especial é fato de ser um Diplomata Estudioso. Ter a experiência, a prática diplomática, é o que te eleva acima dos outros estudiosos desta área. A impressão que tenho é essa: No meio diplomático teu diferencial é ser um Estudioso. No meio acadêmico, é o ser Diplomata. Acho que isso é a diferença, ser um Diplomata.
A união da teoria e da prática...Um diplomata.
Abraços,
X"

Comentários mais adiante...

domingo, outubro 14, 2007

9) PIB diplomatico potencial, parte II

Na seqüência do meu PIB Diplomático Potencial, vejamos esta passagem, aplicada a um diplomata de outros tempos:

"Uma nova fase se abria na sua existência, ao mesmo tempo que se fechava a simplesmente burocrática, que havia começado com a nomeaçao de 1876. Durante esses dezesete anos julgara que todos os seus conhecimentos iriam ser utilizados na obra que projetava escrever sobre a História do Brasil. A missão em Washington, porém, dava-lhe um rumo inesperado. Inicia-se, por fim, a sua carreira de homem de Estado. Antes, fora a fase da preparação; a partir desse momento, será a fase da realização."

(Rio Branco, Biografia, por Alvaro Lins, p. 178).

domingo, outubro 07, 2007

8) PIB diplomático potencial

PIB potencial e disponibilidade intelectual
Paulo Roberto de Almeida
(www.pralmeida.org; pralmeida@mac.com)

Como sabem os economistas, o PIB potencial corresponde à máxima utilização possível dos fatores produtivos, sem que isso represente pressão inflacionária indevida, ou seja, uma situação de rendimento pleno das possibilidades oferecidas pelos fatores disponíveis sem gerar desequilíbrios que acarretem uma solução sub-ótima. Os números são sempre estimados, mas se considera um valor para o PIB potencial como sendo igual ao produto total que se conseguiria obter com o uso pleno da capacidade produtiva de uma economia, ao passo que os valores reais representam o resultado de certa ineficiência produtiva ou de utilização insuficiente de recursos (desemprego de fatores produtivos).
Acredito que a mesma relação deva existir para um outro tipo de “PIB”, que chamarei de “produto intelectual bruto”, podendo este ser dividido, igualmente, em potencial e real. O PIB real, neste caso, corresponde ao que é efetivamente produzido num determinado espaço de tempo (em geral um ano do calendário), ao passo que o potencial seria a “sobreprodução” ideal, com o pleno emprego de fatores, quais sejam as possibilidades intelectuais do cérebro humano (que me parecem propriamente infinitas). O único constrangimento “inflacionário” a ser considerado neste caso seria o esgotamento físico do “produtor potencial”: uma pessoa normalmente dotada, que pode trabalhar certo número de horas por dia, mas que deve empregar horas “vagas” em outras atividades fisicamente necessárias (lazer, sono, alimentação, convívio social etc.). A diferença, talvez, entre o PIB intelectual e o PIB tradicional, ou seja, a produção física de um determinado sistema econômico, é que o primeiro conhece menos limitações “físicas” do que o segundo. De fato, uma economia está constrangida a uma dotação dada de fatores – terra, capital, trabalho –, ao passo que o PIB intelectual potencial não sofre, em princípio, dos mesmos constrangimentos.
Ouso aplicar este tipo de raciocínio ao meu próprio caso, servidor de Estado do serviço exterior brasileiro, membro da carreira diplomática, podendo desempenhar “n” funções na SERE – Secretaria de Estado das Relações Exteriores – ou em posto do exterior. Adicionalmente, tenho certa capacidade intelectual para o exercício de funções didáticas e acadêmicas, que me levam a empregar certo número de horas, diariamente, na leitura, na pesquisa, na sistematização do conhecimento assim acumulado e seu oferecimento sob a forma de aulas, palestras e, sobretudo, de escritos, que são regularmente publicados sob a forma de artigos em periódicos ou de livros. Posso dizer que tenho utilizado quase que plenamente meu PIB potencial na elaboração desse conhecimento especializado em relações internacionais, esforçando-me por oferecer a leitores mais jovens uma fração daquilo que aprendi em leituras atentas, em viagens e em experiências diversas, na ativa observação da realidade e na reflexão ponderada sobre essa mesma realidade. Acredito ter desempenhado essas atividades em toda honestidade intelectual, o que significa que não mantenho “pré-conceitos” ou julgamentos a priori sobre qualquer coisa, mas que procuro retificar meus argumentos e posições com base numa consideração aberta de todos os elementos disponíveis que se oferecem à minha inteligência e capacidade de apreensão da realidade.
Uma avaliação sumária de minha produção intelectual – parcialmente disponível no site pessoal: www.pralmeida.org – indicaria que o PIB real, ou seja a produção intelectual efetiva, não é nada desprezível, consistindo em uma dúzia de livros próprios, mais meia dúzia de livros editados e algumas centenas de artigos em livros coletivos ou periódicos especializados (físicos ou digitais), alguns até em veículos generalistas. Ela é mesmo, de certa forma, impressionante, para alguém que não exerce atividades acadêmicas em tempo integral e que tem de produzir seus artigos e textos diversos nas “horas vagas” noturnas, depois de uma jornada dedicada a atividades profissionais “normais”. Esta é, pelo menos, a impressão que me foi transmitida por observadores independentes, isto é, pessoas que não me conhecem diretamente, mas que apenas registraram minha produção, por eles classificada justamente de “impressionante”, em face dos muitos textos publicados e inéditos que são até circulados sem o meu conhecimento (em especial por alunos em busca de idéias e materiais para algum trabalho universitário).
Acredito, contudo, que meu PIB potencial, por razões que independem de minha vontade, permanece aquém de minhas possibilidades efetivas. Senão vejamos: sou doutor desde 1984, algo não aproveitado em meu ambiente de trabalho profissional, com exceção de um breve período no ano de 1986. Posteriormente, jamais fui chamado a lecionar na academia diplomática ou para integrar bancas de cursos de aperfeiçoamento ou de altos estudos, mesmo já tendo atravessado os “ritos de iniciação” compreendidos no CAD e no CAE. Tampouco fui convidado para participar de obras coletivas organizadas pelo serviço exterior brasileiro, seja diretamente, seja através do seu “braço intelectual”, o IPRI, assim como sou regularmente ignorado em seminários que têm a ver com temas em que já trabalhei profissionalmente ou academicamente, como são os de história diplomática ou de relações internacionais contemporâneas, nos planos multilateral ou bilateral.
Creio que a razão principal pela não-utilização do meu “PIB” potencial se deva a fatores próprios à minha personalidade, ou seja, não sou apreciado pelos meus colegas, sobretudo as chefias, pois devo ser considerado arrogante, desrespeitoso, inconveniente, enfim, características pessoais que não se coadunam com o que se espera, normalmente, de um diplomata. Reconheço esses defeitos e posso até fazer um mea culpa, mas permito-me registrar, igualmente, que essas características não guardam a menor relação com a qualidade intrínseca dos meus trabalhos, que poderiam ser aferidos e avaliados objetivamente em função do seu potencial de contribuição para o enriquecimento intelectual da instituição a que pertenço, independentemente das qualidades (ou falta de) de quem os produziu. Em outros termos, metade (pelo menos) da responsabilidade pela não utilização de meu PIB intelectual potencial pode ser debitada à própria instituição, que atua em bases mais personalistas do que impessoais, como corresponderia a uma instituição weberiana ideal-típica, se ouso dizer.
Pode ser também que minhas contribuições não sejam consideradas como adequadas ou adaptadas ao tipo de “contribuição intelectual” que se espera de um diplomata “ideal”, em geral um ser reservado, discreto, não comprometido politicamente, evitando emitir opiniões pessoais sobre temas da atualidade corrente, sobretudo os que envolvem políticas públicas, em especial no seu campo de atuação. Ou seja, o contrário, em grande medida, do que eu sou, uma vez que não hesito em fazer uma análise o mais possível objetiva da realidade – o que às vezes pode destoar da visão oficial de um determinado processo ou evento –, como tampouco me eximo de expressar opiniões sobre temas que eu julgo relevantes do ponto de vista do interesse do país ou do serviço exterior brasileiro. Nesse ponto reconheço que não sou o diplomata “ideal”, já que sempre estou pronto a analisar algum problema, qualquer problema, pelo ângulo da lógica formal, do estrito atendimento de critérios objetivos de avaliação – análise de custo-benefício, por exemplo –, sem ceder a soluções de conveniência ou de oportunidade, que costumam expressar uma “verdade do momento”, que geralmente se confunde com a opinião ou a posição de quem a emite. Registro, assim, que já me choquei com “opiniões superiores”, geralmente em função desse meu convívio com a análise acadêmica, supostamente objetiva e desprovida de interesses imediatos, o que não deve ter feito bem para minha carreira ou inserção profissional.
Este talvez seja o preço a pagar pela “independência intelectual”, algo difícil de definir, mas que parece ter algo a ver com a liberdade de pensamento e as condições de sua expressão. Nem sempre, eu até diria quase nunca, instituições burocráticas caracterizadas fortemente pelo espírito de hierarquia e disciplina – como parecem ser a Igreja, as Forças Armadas e, neste caso, o serviço exterior, qualquer um – conseguem conviver com o tipo de independência intelectual que deveria caracterizar, idealmente pelo menos, as academias e outros ambientes de trabalho que se baseiam essencialmente na produção intelectual, como é justamente o caso da diplomacia. Trata-se de uma contradição nos termos, uma vez que a diplomacia – que se supõe seja um puro produto da “inteligência humana”, eventualmente apoiada em algum poder real – poderia se beneficiar com aportes inovadores ou não convencionais, mas parece que esse tipo de “aporte” depende da opinião pessoal de quem detém o comando do processo decisório na diplomacia.
Ao concluir estas reflexões, gostaria apenas de deixar registrado que meu PIB potencial, no campo “diplomático-intelectual”, pode estar sendo subutilizado tanto por deficiências próprias de quem escreve estas linhas, mas também por alguma incapacidade institucional em utilizar-se de valores disponíveis em quantidades “ilimitadas” e sem custo de produção. O desemprego de fatores sempre redunda em baixo crescimento da produtividade, algo que não deveria existir em sistemas dotados de racionalidade intrínseca. Salvo melhor juízo, claro...

Brasília, 26 de agosto de 2007.

quarta-feira, julho 04, 2007

7) Um calculo utilitario: quando dias eu ainda tenho de leitura...

Um cálculo dos meus dias de vida, e o que fazer do que resta...

"Nasceste num sábado!
E hoje é o teu 21046º dia neste mundo!"

Bem, segundo os calculos efetuados com a ajuda de uma planilha Excel, eu tinha completado, no dia 4 de julho de 2007, 21.046 dias de vida.
Se ouso projetar minha vida para mais vinte anos, digamos assim, baseando-me na esperança de vida de um brasileiro de classe média, relativamente saudável, eu teria ainda, a gozar, cerca de 7.300 dias de vida.
Posso até fazer um relógio eletrônico, para me lembrar da passagem do tempo, ou melhor, para me alertar sobre o encurtamento do tempo que me resta, mas não sei se isso vai ajudar muito.
Eu devo ter livros, para ler, que me “exigiriam” mais ou menos 150 anos de vida, o que provavelmente não vai ser possível alcançar.
Então, talvez se justifique algum planejamento quanto ao que fazer com os dias que me restam, em termos de leituras, viagens, cinema, e produção literária, no sentido amplo.
Vou tratar disto assim que terminar dois ou três trabalhos urgentes...

Paulo Roberto de Almeida
Belo Horizonte, 4 de julho de 2007

sábado, fevereiro 24, 2007

06) Um alerta de outros tempos...

Em 1917, pacifista convencido, Romain Rolland, escritor francês, manifestou-se da seguinte forma em relação às unanimidades "patrióticas" a que assistia à sua volta:

"Todo homem de verdade deve aprender a ficar só no meio de todos, a pensar só por todos. A humanidade pede àqueles que a amam de fato que, sempre que necessário, sejam capazes de guiá-la e revoltar-se contra ela".
Romain Rolland, "L'Un contre tous", publicado parcialmente em 1917, depois transformado em Clérambault, histoire d'une conscience libre pensant la guerre.

Publicado no Brasil como História de uma consciência - Clérambault (4a. edição: Rio de Janeiro: Editora Ponguetti, 1948).

(informações retiradas da biografia escrita por Alberto Dines: Morte no Paraíso: a tragédia de Stefan Zweig (3a. edição, ampliada; Rio de Janeiro: Rocco, 2004), p. 204.

Talvez a mesma advertência devesse se aplicar ao contexto de 1933-34, quando da ascensão do nazismo, ou mesmo antes, nos anos 1920, quando da ascensão do fascismo italiano. As unanimidades assistidas na Alemanha e na Itália, em relação aos dois totalitarismos ascendentes contribuiram para que ditadores desequilibrados conduzissem seus respectivos países, a Europa inteira e grande parte do mundo a um ciclo infernal de destruições e mortes que até hoje nos causam horror.

Em escala diferente, mas com igual pertinência, creio que cabe alertar contra descaminhos que nos parecem conduzir nossa sociedade a recuos ou pelo menos à estagnação, no plano econômico e material, quando não a retrocessos nos planos político ou cultural. Nessas horas, talvez seja útil seguir a lição de Rolland e ficar sozinho contra todos, e cumprir o papel de mensageiro do desastre, não tendo medo do isolamento, mas respondendo exclusivamente à sua própria consciência.

domingo, fevereiro 18, 2007

05) Retrato dos tempos...

Vence na vida quem diz sim
Chico Buarque

Vence na vida quem diz sim
Vence na vida quem diz sim
Se te dói o corpo, diz que sim
Torcem mais um pouco, diz que sim

Se te dão um soco, diz que sim
Se te deixam louco, diz que sim
Se te tratam no chicote, babam no cangote
Baixa o rosto e aprende o mote, olha bem pra mim

Vence na vida quem diz sim
Vence na vida quem diz sim
Se te mandam flores, diz que sim
Se te dizem horrores, diz que sim

Mandam pra cozinha, diz que sim
Chamam pra caminha, diz que sim
Se te chamam vagabunda, montam na cacunda
Se te largam moribunda olha bem pra mim

Vence na vida quem diz sim
Vence na vida quem diz sim
Se te erguem a taça, diz que sim
Se te xingam a raça, diz que sim

Se te culpam a alma, diz que sim
Se te pedem calma, diz que sim
Se já estás virando um caco, vives num buraco
E se é do balacobaco olha bem pra mim
Vence na vida quem diz sim

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

04) Reflexoes sobre o exilio...


Stranded

Paulo Roberto de Almeida
(pralmeida@mac.com; www.pralmeida.org)

Intelectuais dissidentes, opositores de um regime ditatorial qualquer, perseguidos de opinião e outros desviantes políticos do momento costumam refugiar-se em algum lugar seguro, seja para continuar sua obra costumeira, seja simplesmente para garantir sua segurança pessoal, em circunstâncias difíceis de suas vidas. A imagem da ilha deserta vem logo à mente como o local literariamente plausível para um exílio (auto-)imposto.
Victo Hugo, por exemplo, opositor declarado ao golpe do segundo Bonaparte, o 18 Brumário de Louis Napoléon, na caracterização de Marx, escolheu refugiar-se numa das ilhas de Jersey, no Mar do Norte, perto da Normandia, mas sob jurisdição britânica, e por lá ficou por cerca de 20 anos, só voltando à França com a queda do usurpador da segunda República. Já o capitão Dreyfus não teve escolha: foi recolhido na ignomínia à ilha do Diabo, até ver o seu caso revisto, sob pressão de outros intelectuais opositores, e ser reabilitado. Comeu o pão que o diabo amassou, como se diz, na companhia de baratas e outras pestes.
Não tenho as mesmas preocupações, nem enfrento os mesmos perigos. Meu exílio é diferente: ele independe de lugares ou de situações: ele é basicamente interior e é constituído, finalmente, pelos mesmos elementos que sempre integraram minha vida de leitor e de escritor, ou seja, livros, papel e pluma, atualmente substituídos pelo computador, obviamente.
Talvez seja uma nova forma de ilha deserta, ainda que povoada de livros. Mas eu me sinto conectado ao meio ambiente e acompanho a realidade política e econômica, não apenas nacional. Não me sinto expulso ou cercado por forças hostis e, a bem da verdade, nunca fui tão livre como agora. Outros preferem caracterizar esses exílios virtuais não como uma estada forçada em alguma ilha deserta, mas como uma travessia do deserto, como diria o General De Gaulle. Sem pretender me equiparar a tão ilustre personagem, creio que também estou enfrentando a minha travessia do deserto, aliás, desde algum tempo já.
Circunstâncias desse tipo fortalecem o espírito e incitam à revisão de nossas atitudes, ao confrontar-nos com atitudes e comportamentos que poderiam ter sido outros, e que poderiam ter levado a outros resultados. Somos sempre responsáveis pelas nossas escolhas, e uma boa dose de autocrítica é sempre bem-vinda. Minha ilha sou eu mesmo e meu computador. Assim será...

Brasília, 2 de fevereiro de 2007

sábado, dezembro 23, 2006

03) Declaracao presidencial de final de ano

Mensagem presidencial de final de ano


Meus caros brasileiros, companheiras e companheiros,

Estamos chegando ao final de um ano glorioso, um ano no qual todos vocês puderam se expressar livre e democraticamente nas urnas, consagrando escolhas que cada um de vocês julgou serem as melhores para o país e para este seu povo lutador e esperançoso.
Eu estou muito grato a todos vocês por terem sabido reconhecer meu esforço em prol da melhoria da vida diária dos brasileiros, em especial dos mais humildes e sofredores. Minha luta sempre foi pelo restabelecimento da dignidade dos brasileiros e brasileiras, para que cada um tivesse o seu trabalho digno reconhecido, o seu prato de comida, uma boa educação para os filhos e a certeza de ter segurança não só no lar, mas nas ruas também.

Passado o período eleitoral, quando todos os políticos prometem um pouco mais do que podem cumprir, acho que chegou a hora de eu falar sinceramente com vocês, chegou a hora de eu olhar no olho de cada um de vocês e dizer: não podemos mais continuar do jeito que estamos. Este país merece ser reconstruído, em suas bases. Ele precisa disto, e nós vamos fazer isto, com a ajuda de todos.

Não adianta mais o presidente vir aqui prestar contas todo fim de ano e prometer todas aquelas coisas que vocês sabem que dificilmente serão cumpridas se não reformarmos o país de baixo para cima, se não empreendermos uma gigantesca tarefa de recomposição das forças morais da Nação, se não soubermos que chegou a hora de enfrentar a realidade como ela é, não como gostaríamos que ela fosse.
E a verdade, meus caros cidadãos, é simplesmente esta: o Brasil esgotou o seu modelo de desenvolvimento. Não podemos e não queremos mais continuar crescendo tão pouco, tendo tão poucos empregos bem remunerados, tantas dificuldades nas escolas, hospitais, nas estradas.
Não adianta, por exemplo, eu dizer para vocês: agora, nós estamos prontos para crescer a 5% ao ano, que vamos colocar o Brasil no pelotão de vanguarda dos países desenvolvidos e mais importantes do mundo, se a gente não reconhecer que os principais obstáculos estão aqui mesmo, dentro da nossa casa. É sobre isso que eu quero falar a vocês.

Quero, antes de mais nada, dizer a vocês que a responsabilidade por essas medíocres taxas de crescimento que assistimos há mais de vinte anos não está com vocês, trabalhadores sofridos deste nosso Brasil. Ela está conosco: nós, os políticos e empresários, sindicalistas e funcionários públicos de alto escalão, nós somos a elite que sempre governou o país, da Independência até hoje. Como vocês vêem, eu também mei incluo no rol dos responsáveis. Estou falando como dirigente, e como responsável máximo por este país, e não pretendo fugir a essa responsabilidade.

Pois bem, meus caros brasileiros e brasileiras, chegou a hora de dizer a verdade.
Desejo, acima de tudo, assumir humildemente a minha parte de responsabilidade por esta situação difícil que estamos vivendo: o baixo crescimento, os buracos nas estradas, o caos nos aeroportos, as filas nos hospitais, a má qualidade da educação nas escolas públicas, o desemprego e os baixos salários, tudo isso, não é só culpa do governo, mas o governo leva a maior parte de responsabilidade, pois que cabe a ele velar para que isso não aconteça. Vocês me elegeram para isso mesmo e quero assumir plenamente minha responsabilidade pela situação.
Justamente, com a experiência do primeiro mandato, agora eu consigo medir de forma mais exata o peso da responsabilidade do Estado na situação de vida de cada um dos brasileiros. Não adianta culpar as elites dos últimos 500 anos pela situação presente, se nós mesmos, a elite do presente, não assumirmos o encargo de corrigir a situação. E a elite somos nós, que estamos à frente do Estado, que somos responsáveis pelo governo.

Minha experiência me indica que precisamos corrigir graves distorções no funcionamento do Estado, sem o que não teremos crescimento, nem de 5, nem de 4, nem de 3%, e continuaremos a percorrer a trilha da amargura e da desesperança.
Eu quero mudar isto e vocês vão me ajudar. Eis aqui o que eu penso que deveria ser feito.

O Brasil precisa de uma reforma política, mas de uma verdadeira, não aquela que só acrescenta alguns remendos na legislação eleitoral ou na representação partidária.
O fato é, meus caros cidadãos, que o Brasil criou uma classe política que se tornou dona do Estado, dona do país, que se julga acima dos demais brasileiros, cidadãos comuns, e que passa a maior parte do tempo tentando redistribuir o dinheiro de todos para suas causas particulares. O Brasil possui um Legislativo muito grande e sobretudo muito caro, em todos os níveis, do mais humilde município ao Congresso Nacional.
Por isso eu proponho, em primeiro lugar, que a gente reduza o peso do Estado, de todo o Estado, na vida dos cidadãos. O Brasil não precisa de tantos parlamentares, de tantos funcionários dos legislativos, o Brasil, sobretudo, não pode suportar mais os gastos incomensuráveis que esses estados dentro do Estado acarretam no bolso de cada um de vocês. O número de parlamentares e o número de funcionários dos legislativos devem ser diminuídos, assim como devem ser reduzidas as despesas inaceitáveis que eles trazem para os cofres públicos.
Proponho que os funcionários remanescentes sejam remanejados, dentro do Estado, para as áreas mais carentes: educação, saúde pública, atendimento aos idosos, serviços básicos.

Essa reforma política deve compreender, também, os Executivos, que cresceram de modo caótico nos últimos anos, acumulando cada vez mais despesas continuadas. Não é possível, por exemplo, que um governador que serviu ao povo do seu estado por um ou dois mandatos se julgue merecedor de uma aposentadoria permanente, de funcionários à disposição, de regalias que não são dadas a nenhum outro funcionário público. E a reforma política e administrativa deve atingir também o Judiciário. Não é possível que um juiz no início de carreira ganhe quase tanto quanto um de final de carreira, e não é possível que os processos se acumulem por causa de uma legislação de processos caduca e ineficiente, feita para premiar alguns advogados espertos, em detrimento da verdadeira justiça, que deveria estar ao alcance de todo cidadão.

O Brasil precisa, em segundo lugar, de uma verdadeira reforma tributária, já que nos últimos vinte anos a carga fiscal só fez crescer no Brasil, diminuindo a poupança privada e as possibilidades de investimento de empresários e de simples cidadãos desejosos de se lançar em alguma atividade produtiva. Sei que os estados, os governadores, desconfiam de mais uma reforma tributária centralizadora. Eles gostariam de avançar sobre algumas das contribuições hoje sob responsabilidade da União, justamente porque a Constituição criou tantos encargos novos, sobretudo na área previdenciária e assistencial, que o governo federal só pode atender taxando ainda mais os cidadãos. Por isso, eu proponho que todos nós, do governo federal e dos governos estaduais, nos concertemos não na criação de novos impostos, mas na redução dos existentes. Isto pela simples razão de que essa diminuição vai trazer mais crescimento e maior arrecadação.
Não vou apresentar aqui e agora os contornos dessa reforma tributária absolutamente indispensável se quisermos retomar o processo de crescimento, já que cheguei à conclusão de que ele só não vem por causa da excessiva carga tributária. Apresento apenas os princípios, e eles têm de ser os da redução da carga total, a exoneração dos lucros das empresas e a redução dos encargos sobre a folha salarial. Apenas dessa maneira vamos conseguir retomar o crescimento e a criação de empregos.

O Brasil precisa, em terceiro e mais importante lugar, não de uma simples reforma, mas de uma verdadeira revolução educacional, uma mudança completa nas nossas prioridades de ensino, que devem passar a ser o básico e o técnico-profissional, não apenas o ciclo superior, este sempre beneficiado com maiores verbas e atenções federais. O futuro está nas nossas crianças e jovens, e são eles que devem receber os cuidados prioritários, junto com os professores dos ciclos fundamental e médio. Mais do que computadores, precisamos, simplesmente, de professores bem treinados e motivados, animados da sagrada missão de ensinar o que é básico, elementar, que é o domínio da língua, as matemáticas elementares, os fundamentos das ciências exatas e naturais.
Gostaria de determinar uma profunda reforma nos currículos e na gestão das escolas públicas, no sentido de fazer do professor e do seu aluno do fundamental e do médio o centro das nossas atenções pelos próximos vinte anos, pelo menos. Isto é absolutamente indispensável se desejarmos competir na economia global, se quisermos ter uma melhor distribuição de renda, se quisermos construir uma nação solidária e includente.

O Brasil também precisa de uma profunda reforma trabalhista e de uma grande reforma sindical. Que me perdõem os meus amigos sindicalistas, companheiros de antigas lutas, mas eu reconheço agora que eles estão mais interessados em preservar os empregos dos seus associados do que em promover o emprego dos atualmente excluídos. Minha responsabilidade principal está em criar novos empregos e em permitir que as empresas tenham flexibilidade suficiente para adaptar sua mão-de-obra aos novos requerimentos da globalização. Aprendi que uma legislação ultraprotetora, como esta que temos atualmente, produz, na verdade, mais desemprego do que ela oferece novas oportunidades de ocupação remunerada.
Por isso, eu acho que precisamos passar uma enorme borracha na nossa legislação laboral e criar as condições para incorporar no mercado de trabalho os milhões de brasileiros e brasileiras hoje excluídos. Essa reforma passa também pelo salário mínimo e pelas garantias tradicionais. A melhor garantia de altas taxas de ocupação é o treinamento constante da mão-de-obra, a flexibilidade laboral, a adaptação da legislação aos requisitos de uma economia moderna, baseada no conhecimento. Essa visão já foi testada ao redor do mundo, e ganhou de todos aqueles modelos baseados na rigidez do mercado de trabalho, que só produzem alto desemprego e, com ele, a exclusão e a desesperança.

O Brasil precisa, em especial, de uma nova noção de país, de uma nova visão de Nação, de uma concepção do mundo que deixe de ter no Estado a peça central da organização política, econômica e social, e que passe, ao contrário, a ter nas forças vivas da Nação a sua própria base de organização. O Brasil é hoje um país enredado, amarrado numa selva inacreditável de leis, regulamentos, decretos, portarias, normas que se contradizem umas às outras, e que terminam por manietar o espírito empreendedor e a capacidade de iniciativa de milhões de brasileiros. Vamos mudar isso, vamos desregular, privatizar o que for necessário, descentralizar aquilo que não precisa estar na esfera federal, vamos devolver à comunidade, ao povo, sua capacidade de criar, empreender, inovar.

Meus caros brasileiros e brasileiras,
Quero transmitir a cada um de vocês minha certeza de que podemos, sim, se nos unirmos, construir um país melhor. As reformas que eu apontei me parecem condição incontornável para que possamos seguir um caminho diferente daquele que foi seguido até aqui, que só trouxe mais do mesmo. Queremos e precisamos romper com a mesmice do que vem sendo feito até aqui. Eu quero impulsionar uma nova arrancada deste país em direção a um futuro melhor. Para isso, precisamos nos unir em torno dessas grandes reformas. Se não o fizermos, estaremos legando a nossos filhos e netos um país inviabilizado pelo baixo crescimento, corroído pelas altas taxas de desemprego, diminuído em suas possibilidades de desenvolvimento econômico e social, abatido pela corrupção trazida por uma imensa máquina pública, desesperançado pelos crimes, pela baixa educação, pela deterioração da nossa infra-estrutura, marcado ainda e sempre pela desigualdade social e pelos desequilíbrios regionais.
Eu quero um país que seja forte economicamente, rico espiritualmente, justo socialmente, um país do qual nós possamos todos nos orgulhar. Para isso, precisamos nos dar as mãos e atacar os problemas de frente. Não adianta mais empurrar com a barrriga a solução desses problemas, transferir essa responsabilidade a uma outra geração. A hora é aqui e agora. Vamos fazer!

Desejo um excelente final de ano a todos vocês e um ótimo ano novo, com muita paz, serenidade e renovadas esperanças na nossa capacidade de reconstruir o Brasil.
Bom ano a todos vocês. Muito obrigado.


Pela sugestão de texto:
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 23 de dezembro de 2006.
(pralmeida@mac.com; www.pralmeida.org)

domingo, dezembro 10, 2006

02) Cronicas do limbo

Limbo, segundo os dicionários, representa, na teologia cristã, uma região próxima do inferno, um refúgio para as almas dos homens bons, que viveram antes da chegada de Cristo, e para as almas das crianças não batizadas.
Num sentido civil, pode aproximar-se de uma espécie de prisão, ou confinamento.
No sentido mais comum do termo, seria um lugar ou a condição de negligência ou de esquecimento aos quais seriam relegadas coisas ou pessoas não desejadas.

Estas são as definições que retiro do Webster's New Universal Unabridged Dictionary (2nd edition; New York: Simon and Schuster, 1979), p. 1.049.

Pois bem. Pensei em intitular uma nova série de trabalhos atinentes às minhas pesquisas e reflexões de diferentes maneiras: crônicas do deserto, do cerrado, do agreste, ou de qualquer outro conceito denotando uma situação áspera, difícil, de isolamento ou de dificuldade, enfim, totalmente conforme às minhas condições e expectativas.
Não me decidi ainda, mas desejo, de todo modo e desde já, deixar registradas estas primeiras impressões de uma fase, já passada e ainda por vir, que se apresenta como particularmente complicada, em termos de projetos de vida, tanto pelo lado profissional, como pelo lado acadêmico ou pessoal.
As pessoas são responsáveis, em grande medida, pelo seu próprio destino, na medida em que fazem escolhas, adotam posturas, assumem atitudes que as colocam em maior ou menor conformidade com o seu meio social, com o seu ambiente profissional, com o seu universo de relacionamentos e interações.
Sou o resultado de minhas próprias escolhas, ainda que outros possam ter contribuído, direta ou indiretamente, para minha condição atual.
Não pretendo lamentar nada, ainda que exercícios de auto-reflexão e revisões críticas de trajetórias passadas e presentes sejam sempre desejáveis, na perspectiva de corrigir o que está errado e impulsionar caminhos mais atrativos, ou interessantes.
Vou estabelecer, neste final de ano, um plano de trabalho para enfrentar os próximos meses, talvez anos, de travessia do meu deserto particular.
A palavra limbo talvez não seja inadequada. Ela fica, em todo caso, como conceito chave desta minha primeira crônica, preliminar, aguardando que eu me detenha sobre algum substantivo mais apropriado.
Brasília, 10 de dezembro de 2006.

segunda-feira, novembro 13, 2006

01) Uma nova serie diplomatica, para novos tempos


Hello, folks...
Não era para imitar o famoso desenho das formiguinhaZ...
Mas confesso que não resisti: ao assistir, pela TV, mais uma apresentação desse simpático desenho animado, fiquei com vontade de retomar minhas reflexões sob esse nome.
Normalmente, o Z denotaria o último da fila, mas acho que ele quer dizer apenas diferente, fora do normal, alguém que não se deixa levar pelo "abecedário normal", que toma a sua própria via, de alguma maneira.
Deve ser isso.
Em todo caso, convido os interessados a um passeio pelo mundo da cultura, dos livros, das discussões em torno do Brasil e sua inserção internacional.