Minitratado dos reencontros
Paulo Roberto de Almeida
(ver toda a série neste link)
Depois de ter tratado, num dos minitratados (sem jogo de palavras) desta série, dos desencontros, cabe falar também dos reencontros, que podem eventualmente ocorrer, embora eles possam demorar algum tempo para se materializar, por vezes até alguns anos. O reencontro pode ser considerado a inflexão da curva de dispersão, ou da linha de divergência, que tinha sido formada, ou que existia, por ocasião do desencontro. Com efeito, o reencontro só se justifica, na maior parte dos casos, após um desencontro ter acontecido, salvo se a separação anterior foi uma obra do acaso, uma contingência inesperada, um acidente de percurso ou seja lá qual fator acidental. Em qualquer hipótese, um reencontro depende da vontade de pelo menos uma das partes, imponderável como pode ser a realização de uma expectativa, sempre dependente das trapaças da sorte ou da astúcia da razão. Se as duas partes o desejam, então a conjunção se faz mais facilmente ainda, embora essa hipótese seja mais rara.
A razão, a motivação e o esforço para realizar o reencontro estão todos situados numa mesma dimensão fundamental: a carência, real ou percebida, em relação a uma situação de melhor conforto espiritual com uma dada relação. Tem de ser isso, ou então não haveriam motivos para tantas angústias, tantas reflexões ao léu, tantas suposições otimistas, tantos cenários idealizados. Carências podem se manifestar de duas maneiras: uma negativa, que seria uma espécie de estado depressivo, outra mais positiva, que seria a esperança levada ao estado de euforia, caso o reencontro se materialize por acaso ou por intenção. Seria simples assim? Provavelmente não, pois raramente existem soluções extremas para a maior parte dos casos e sim o continuum de situações indefinidas, que angustiam o “paciente”.
Existe uma estratégia para o reencontro, ou estratégias? Eventualmente, a parte interessada no reencontro pode elaborar uma (e segui-la, o que parece mais importante), embora tudo possa ser muito difuso e até isento de planejamento quanto aos lances táticos que levariam, supostamente, ao almejado reencontro, que é, por certo, a convergência de vontades. Na paz como na guerra, na vida civil como na vida militar (se é que se pode falar em vida, neste caso), na autonomia como na dependência, sempre se pode desenhar estratégias para enfrentar os acasos da vida (embora isso não queira dizer que todas elas funcionem adequadamente). Jogos de guerra, ou jogos de amor, nem tudo termina com final feliz para todos, o tempo todo.
Já que este é um minitratado – ou seja, um documento formal de procedimentos, métodos e disposições práticas, quase um manual de serviço – caberia descrever os detalhes da estratégia e discutir seus elementos táticos. Quem sabe a partir daqui não resulte um desses How to do?, desses que vendem nas estantes de autoajuda – ou até um Idiot’s Guide to Making Up Again – que podem ser úteis a almas gêmeas temporariamente separadas ou a corações desesperados? Não tenho certeza de oferecer o manual perfeito para tranquilizar corações desesperados, mas vou tentar acalmar os confusos (sem garantia de sucesso e sem dinheiro devolvido).
A primeira tarefa nesse tipo de empreendimento é definir as chances de que o objetivo se concretize; existem várias possibilidades classificatórias: o reencontro pode ser utópico, realizável, impossível, razoável no médio prazo, imprevisível, mesmo no longo prazo, etc. Pode até conceber um quadro analítico – quem sabe uma tabela Excel? – com cronogramas definidos, cujas células poderiam ser ocupadas por “missões” graduais para a consecução do reencontro, até a etapa final de atingimento do objetivo fixado. Uma estratégia consequente prevê várias táticas alternativas, todas conjugadas ou atuando de forma sucessiva, conforme os efeitos e resultados da aplicação de cada um.
Existem métodos diretos ou indiretos de aproximação, o que for mais conveniente. Hoje em dia, o Google resolve quase todos os pedidos de busca, mesmo os mais inusitados (suponho que até a polícia, em suas missões para os mais “wanted men”, mas podem ser “women” também, use o Google para buscas rápidas). As redes sociais também “atingem” – literalmente – milhões de pessoas, embora nesses casos de busca afetiva um dos lados sempre peca por timidez.
Definida a estratégia e desenvolvidas algumas técnicas, cabe esperar uma implantação decisiva da missão “reencontro”, de preferência com ações bem pensadas para não frustrar o objetivo final. Geralmente a abordagem é gradual, indireta e silenciosa, embora existam os apressadinhos (em parte incautos) que passam a uma tática de assédio pouco recomendável para a maior parte dos casos. Um “levantamento de terreno” preliminar – como no caso do planejamento militar – parece indispensável ao desenvolvimento de uma estratégia bem montada, o que implica em conhecimentos mínimos de cartografia afetiva e de mapeamento sentimental.
A logística também apresenta papel importante, pois é preciso planejar as operações sobre o terreno, com margem suficiente de manobras e recursos disponíveis para manter presença no terreno. Aqui não precisa de soldados, no sentido estrito do termo, mas certamente precisará de talão de cheques, no sentido estrito e no lato, sobretudo neste último. Quanto mais lato melhor, pois essas táticas de sedução costumam ser altamente custosas para o bolso do contribuinte...
Enfim, quaisquer que sejam as táticas e estratégias a serem mobilizadas no esforço de reencontro, é preciso ter algo para “vender”; do contrário fica difícil concretizar a meta da “conquista” (como nos objetivos militares). O objeto, parece claro, é o próprio iniciador do esforço de reencontro, o personagem que se coloca na posição de articulador de novas situações, o proponente de uma nova etapa de vida. Nesse ponto entramos naquilo que os americanos chamam de core of the matter, ou na substância da matéria. Não tenho sugestões a fazer neste particular. Apenas desejar que o pretendente seja o personagem dos sonhos da pessoa visada. Também acontece...
Brasília, 14 de abril de 2011
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sábado, abril 16, 2011
sábado, abril 02, 2011
Minitratado dos desencontros - Paulo Roberto de Almeida
Minitratado dos desencontros
Paulo Roberto de Almeida
O que é um desencontro? Dito simplesmente, é uma defasagem, no tempo ou no espaço, entre dois corpos, cada um seguindo vias próprias e diferenciadas, sem qualquer possibilidade de cruzamento. Para fins deste minitratado, no entanto, o desencontro é um descompasso entre dois sentimentos, um pretendendo resposta e reação, o outro permanecendo desatento ou distraído, o que pressupõe alguma instância de reciprocidade ou linha de cruzamento, mesmo virtual.
Na melhor das hipóteses, o desencontro é passageiro, e a correspondência esperada se faz em algum momento, em algum lugar. Na pior, as expectativas de uma parte não logram sensibilizar ou dobrar a vontade da outra parte, e o desencontro se converte em motivo de sofrimento. Todo desencontro, ou toda indiferença é um sofrimento, pelo menos para uma das partes. Todos nós sabemos disso.
Por que existem desencontros? Eu poderia ser economicista e dizer que a reta (sempre crescente) da procura não encontra a “sua” curva da oferta, o que pode ocorrer em face de qualquer falha de mercado ou externalidade negativa. Sendo menos sarcástico, e mecanicista, pode-se dizer que, no terreno dos sentimentos humanos, não existe qualquer equivalência mecânica, como aquela identificada com a “lei de Say”, que pretende que a oferta cria sua própria demanda.
Mas tampouco funciona neste caso a chamada “inversão keynesiana”, que espera que a demanda artificialmente criada pelo poder de emissão de alguma autoridade desperte os “espíritos animais” dos agentes de mercado, que decidem, a partir daí, manter a oferta agregada. Os economistas, assim como os contabilistas, não gostam de desencontros: eles sempre pretendem fechar a equação de equilíbrio, buscando a resposta para déficits ou superávits mesmo por meios artificiais.
No caso das amizades ainda se pode esperar alguma reciprocidade, ou seja, um equilíbrio e correspondência de vontades e prestações mútuas; nas amizades existe, sobretudo, confiança entre as partes. Tudo isso é muito difícil de ser estabelecido no caso de paixões mais “incisivas”, como o amor, que não exige retorno direto; ele pode ser unilateral, unidirecional, não correspondido e assimétrico, como nas relações de dependência ou de assistência entre países avançados e economias miseráveis, que vivem da cooperação ao desenvolvimento (outro nome para a assistência pública).
Como nas relações econômicas, porém, o desencontro é uma expectativa não realizada, por insuficiência de fatores ou de insumos, que atendam aos requisitos dos “consumidores”. Não se trata apenas de uma assimetria de informação, mas de um desequilíbrio sistêmico, que impregna toda a equação de mercado, afetando aquela transação que se esperava realizar. O desencontro, portanto, está muito longe daquela situação que os economistas chamariam de “ótimo paretiano”. Numa figuração de química doméstica, ele seria como a superposição entre a água e o azeite.
Nem todas as culturas, porém, cultivam essa oposição de sentimentos, o confronto de posições, essas cenas dramáticas, típicas de novelas mexicanas. Na tradição oriental, a aparente oposição do yin e do yang acaba conhecendo alguma síntese reconciliadora, assim como na sua gastronomia encontramos o agridoce, que nos enche de prazer, mesmo momentâneo. Mas o desencontro constitui justamente o retorno do azedo sobre o sentimento temporário de doçura e de conforto espiritual.
Existem soluções para os desencontros? Talvez, mas certamente não “a” solução, a fórmula mágica que permitiria eliminar toda frustração e todo sentimento de impotência em face da indiferença alheia. Algumas situações podem ser apenas contornadas, pelo uso dos “estímulos corretos”, geralmente de natureza material. Muitos “compram” o amor, é verdade, ou atuam para criar uma relação de dependência, o que teoricamente pode fazer com que retas paralelas se encontrem em algum ponto do espaço. Mas esse tipo de “equilíbrio” é muito frágil, já que espíritos independentes não suportam a subordinação de sua vontade, justamente.
Qual seria, então, um possível remédio a um desencontro específico? Sem nenhuma garantia de sucesso, como em qualquer empreendimento humano, fazer-se admirar, provocar o reconhecimento da outra parte pelas ações beneméritas, generosas e “desprendidas” que se decide oferecer unilateralmente. Em uma palavra: ser bom, o que implica ser atencioso, prestativo, sempre pronto a confortar a outra parte, aquela com a qual se busca o encontro, justamente. Sinceridade é fundamental, mas confessar a ação calculada poderia parecer oportunismo, interesse egoísta, até maquiavelismo, no sentido vulgar deste conceito.
Sempre se espera que o desencontro seja passageiro, mas o descompasso pode, na verdade, durar anos, ou décadas. Paciência e constância nos sentimentos constituem, neste caso, duas virtudes fundamentais. Feliz final do seu desencontro...
Curitiba-Brasília, 2 de abril de 2011
Paulo Roberto de Almeida
O que é um desencontro? Dito simplesmente, é uma defasagem, no tempo ou no espaço, entre dois corpos, cada um seguindo vias próprias e diferenciadas, sem qualquer possibilidade de cruzamento. Para fins deste minitratado, no entanto, o desencontro é um descompasso entre dois sentimentos, um pretendendo resposta e reação, o outro permanecendo desatento ou distraído, o que pressupõe alguma instância de reciprocidade ou linha de cruzamento, mesmo virtual.
Na melhor das hipóteses, o desencontro é passageiro, e a correspondência esperada se faz em algum momento, em algum lugar. Na pior, as expectativas de uma parte não logram sensibilizar ou dobrar a vontade da outra parte, e o desencontro se converte em motivo de sofrimento. Todo desencontro, ou toda indiferença é um sofrimento, pelo menos para uma das partes. Todos nós sabemos disso.
Por que existem desencontros? Eu poderia ser economicista e dizer que a reta (sempre crescente) da procura não encontra a “sua” curva da oferta, o que pode ocorrer em face de qualquer falha de mercado ou externalidade negativa. Sendo menos sarcástico, e mecanicista, pode-se dizer que, no terreno dos sentimentos humanos, não existe qualquer equivalência mecânica, como aquela identificada com a “lei de Say”, que pretende que a oferta cria sua própria demanda.
Mas tampouco funciona neste caso a chamada “inversão keynesiana”, que espera que a demanda artificialmente criada pelo poder de emissão de alguma autoridade desperte os “espíritos animais” dos agentes de mercado, que decidem, a partir daí, manter a oferta agregada. Os economistas, assim como os contabilistas, não gostam de desencontros: eles sempre pretendem fechar a equação de equilíbrio, buscando a resposta para déficits ou superávits mesmo por meios artificiais.
No caso das amizades ainda se pode esperar alguma reciprocidade, ou seja, um equilíbrio e correspondência de vontades e prestações mútuas; nas amizades existe, sobretudo, confiança entre as partes. Tudo isso é muito difícil de ser estabelecido no caso de paixões mais “incisivas”, como o amor, que não exige retorno direto; ele pode ser unilateral, unidirecional, não correspondido e assimétrico, como nas relações de dependência ou de assistência entre países avançados e economias miseráveis, que vivem da cooperação ao desenvolvimento (outro nome para a assistência pública).
Como nas relações econômicas, porém, o desencontro é uma expectativa não realizada, por insuficiência de fatores ou de insumos, que atendam aos requisitos dos “consumidores”. Não se trata apenas de uma assimetria de informação, mas de um desequilíbrio sistêmico, que impregna toda a equação de mercado, afetando aquela transação que se esperava realizar. O desencontro, portanto, está muito longe daquela situação que os economistas chamariam de “ótimo paretiano”. Numa figuração de química doméstica, ele seria como a superposição entre a água e o azeite.
Nem todas as culturas, porém, cultivam essa oposição de sentimentos, o confronto de posições, essas cenas dramáticas, típicas de novelas mexicanas. Na tradição oriental, a aparente oposição do yin e do yang acaba conhecendo alguma síntese reconciliadora, assim como na sua gastronomia encontramos o agridoce, que nos enche de prazer, mesmo momentâneo. Mas o desencontro constitui justamente o retorno do azedo sobre o sentimento temporário de doçura e de conforto espiritual.
Existem soluções para os desencontros? Talvez, mas certamente não “a” solução, a fórmula mágica que permitiria eliminar toda frustração e todo sentimento de impotência em face da indiferença alheia. Algumas situações podem ser apenas contornadas, pelo uso dos “estímulos corretos”, geralmente de natureza material. Muitos “compram” o amor, é verdade, ou atuam para criar uma relação de dependência, o que teoricamente pode fazer com que retas paralelas se encontrem em algum ponto do espaço. Mas esse tipo de “equilíbrio” é muito frágil, já que espíritos independentes não suportam a subordinação de sua vontade, justamente.
Qual seria, então, um possível remédio a um desencontro específico? Sem nenhuma garantia de sucesso, como em qualquer empreendimento humano, fazer-se admirar, provocar o reconhecimento da outra parte pelas ações beneméritas, generosas e “desprendidas” que se decide oferecer unilateralmente. Em uma palavra: ser bom, o que implica ser atencioso, prestativo, sempre pronto a confortar a outra parte, aquela com a qual se busca o encontro, justamente. Sinceridade é fundamental, mas confessar a ação calculada poderia parecer oportunismo, interesse egoísta, até maquiavelismo, no sentido vulgar deste conceito.
Sempre se espera que o desencontro seja passageiro, mas o descompasso pode, na verdade, durar anos, ou décadas. Paciência e constância nos sentimentos constituem, neste caso, duas virtudes fundamentais. Feliz final do seu desencontro...
Curitiba-Brasília, 2 de abril de 2011
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sábado, fevereiro 12, 2011
Minitratado da imaginação - Paulo Roberto de Almeida
Minitratado da imaginação
Paulo Roberto de Almeida
Diferentemente dos animais – embora aqueles que se consideram “íntimos” dos animais não acreditam que eles sejam uma exceção à regra –, todos nós, humanos, possuímos a faculdade inata da imaginação. Alguns mais do que outros, pois conheço aqueles que sonham acordados (eu mesmo, por exemplo). A imaginação nos foi dada de graça, no ato da criação – e não vai aqui nenhuma interpretação religiosa da criação humana – e ela vem, por assim dizer, no pacote original junto com todos os outros sentidos, aqueles cinco da versão consagrada, e mais alguns – ditos paranormais – que circulam em volta da gente, do nosso cérebro e também do nosso coração (ou que pelo menos se aproveitam da distração de alguns desses sentidos tradicionais para se imiscuir sorrateiramente em nossas vidas).
Mas a imaginação não é um simples sentido natural, e sim um ato da vontade, embora não possamos impedir nossa própria consciência de imaginar “coisas”. Mas essas coisas imaginadas são instruídas, orientadas, criadas e administradas por nós, como se fossemos um diretor de cinema ou de teatro, quando eles dizem aos atores como o script deve ser realmente lido e interpretado. A diferença é que estamos “dirigindo” nossas próprias vidas, ou aquela que imaginamos para nós. A imaginação também é um roteiro, um script que fazemos, que desfazemos, criamos e recriamos, modificamos e apagamos, o tempo todo, embora sempre sobra um resquício do que pensamos no fundo do cérebro, e que de vez em quando emerge contra a nossa própria vontade.
É isso: a imaginação é um script rebelde, que não respeita a direção que acreditamos desempenhar, e que nem aceita nenhuma outra representação, senão aquela mesma que queremos dar, naquele momento, mas que por vezes escapa ao nosso controle, qual um filho rebelde, um adolescente independente. Esse roteiro tem páginas em branco, mas também sofre mudanças imperceptíveis, mesmo contra a nossa vontade. Ela é difícil de domar a imaginação.
Será que, como nos tratados, ou minitratados (como este e alguns outros que já elaborei), a imaginação tem uma ordem pré-determinada, um arranjo fixo que dispõe sobre suas partes e componentes. Quais seriam? Talvez prólogo (ou preâmbulo), disposições preliminares (ou definições de conceitos), disposições principais, duração, membros do enredo (ou Estados partes), solução de controvérsias, cláusula de denúncia, disposições transitórias, local e data, assinatura do autor? Não creio. A imaginação – mesmo sendo objeto de um minitratado como este – não é assim tão burocrática e organizada, e sim caótica, errática, cheia de idas e vindas, conflitos íntimos e tensões externas, enfim, tudo aquilo que estamos no direito de esperar de uma imaginação dotada de plena capacidade para nos entreter, nos embriagar, trazer-nos alguma felicidade momentânea ou mergulhar-nos em algum estado depressivo temporário.
O que move a imaginação? As paixões, certamente. O amor, talvez o ódio, o afeto, a ambição, a cupidez, o egoísmo – enfim, vocês acrescentem os outros pecados capitais – mas também a generosidade, o desprendimento, o interesse, a curiosidade e tudo aquilo que movimenta o cérebro humano, sobretudo e principalmente nosso meio ambiente, a família, as experiências na escola, no trabalho, na rua, na vida, enfim. Tudo suscita e alimenta a imaginação, e houve até um filósofo – minha imaginação não me ajuda agora a relembrar o seu nome – que sugeriu que a própria existência humana era um ato de imaginação. Os surrealistas certamente já produziram obras que são pura imaginação, e por isso fizeram sucesso (alguns até extorquiram muito dinheiro dos incautos, que geralmente têm pouca imaginação).
Os desenhos animados, e até alguns filmes de ficção, costumam representar alguns espíritos malévolos como dotados de muita imaginação, geralmente retratados como aqueles personagens de testa alta, cérebro volumoso, neurônios agitados, quando não ligados a estranhos aparelhos que pretendem transformar essa imaginação – por definição perversa – em poder sobre os homens e sobre o mundo. Não gosto muito dessa “versão” da imaginação, e sim daquela que figura no script dos filmes românticos, das comédias espirituosas e otimistas, quando tudo no final se encaixa, para trazer toda a felicidade esperada aos dois heróis principais da história. Essa é sem dúvida a “imaginação” que todos gostaríamos que acontecesse conosco, pois ficamos o tempo todo torcendo para que o herói ou a mocinha superem os perigos que os cercam, escapem das garras dos vilões ocasionais e, por fim, se reencontrem ao final do script para nosso maior conforto e felicidade imaginária.
Nem todo mundo tem direito a uma versão terrena, ou seja, real, desse roteiro otimista, com música de fundo, cenários coloridos, dos filmes que adoramos assistir em momentos de détente. Sim, nem todo mundo tem condições de se realizar numa vida feliz, sem preocupações materiais e sem angústias amorosas. Mas todos nós, sem exceção, temos direito a nossa quota de imaginação, ou a quanta imaginação pudermos “suportar”, ao longo de uma vida que é também feita de cruas realidades, de notas baixas na escola, de cobranças do chefe no trabalho, de lista de compras a serem feitas imediatamente, de louça na pia e de trastes para jogar fora. Tudo isso não nos impede de sonhar acordados, mesmo quando estamos cuidando da louça na cozinha, saindo para passear os cachorros ou empurrando o carrinho no supermercado (atenção para não se enganar de produto, ou levar o que não precisa...).
A imaginação nos ajuda a suportar um mundo que pode ser momentaneamente insuportável, uma vida aborrecida, feita de frustrações ou de restrições materiais. Todos nós já nos imaginamos ganhando na loteria, com o que TODOS os nossos problemas estariam automaticamente resolvidos (ou pelo menos imaginamos que sim). Todos nós já imaginamos o amor perfeito, sem nenhuma briga, felicidade eterna e juventude idem... Enfim, sabemos que isso não existe, ou pelo menos não todo o tempo, mas não custa imaginar que sim...
Quando é que vamos nos livrar da imaginação, aquela que nos impede de dormir imediatamente de noite, quando precisamos acordar cedo na manhã seguinte? Acho que nunca, pois isso é impossível: mesmo quando a gente se esforça para ficar com a mente limpa, com o cérebro em branco, para adormecermos mais rapidamente, lá vem a imaginação, sorrateira, atrapalhar nossos planos e prolongar a vigília noturna. Bandida imaginação, a roubar-nos horas de sono, a propor coisas impossíveis, realizando nossos desejos de ganhos, de vingança, de conquistas afetivas e de escapadas oportunas. Como é bom imaginar que aquilo possa de fato acontecer!
Em nossa economia política da existência, a imaginação também obedece às misteriosas curvas da oferta e da demanda. Nós, como simples humanos, dotados de carências, vontades e desejos, demandamos imaginação, o tempo todo, numa curva infinita, quase uma reta, para cima, sempre. Nosso cérebro não se faz de rogado, e atende imediatamente a essas carências materiais ou virtuais e fornece todos os insumos de que necessitamos, quase uma cornucópia inesgotável obedecendo ao velho princípio socialista “a cada um segundo suas necessidades”. Mas aí, por algum motivo, nos chocamos com a realidade, com a disponibilidade de “fatores de produção”, e a curva é arrastada dolorosamente para baixo, até se encontrar com as possibilidades de atendimento da demanda. O ponto de equilíbrio – como em todas as equações econômicas – é sempre num nível mais baixo do que desejaríamos, pois como diriam os economistas realistas, não se pode ter canhões e manteiga ao mesmo tempo, pelo menos não nas quantidades desejadas. Temos de fazer escolhas, hélas!
Ao fim e ao cabo, a imaginação também nos ajuda nessas escolhas dolorosas, mas que têm de ser feitas: sabemos, por experiência e aprendizado, que temos de domar a imaginação, pelo menos no domínio dos meios materiais e da existência terrena. Mas nada nos impede de construir um mundo onírico, feito de imagens puras, pessoas ideais (até reais), situações e palavras agradáveis, totalmente submetidas ao nosso controle, como nesses teatros de bonecos, nos quais mexemos os personagens e inventamos as suas vozes, escolhemos suas palavras (que são aquelas que gostaríamos de dizer ou de ouvir, sem qualquer restrição da vontade alheia ou de copyright proprietário).
Como é bom imaginar que somos poderosos ao ponto de dominarmos até a imaginação de terceiras pessoas, que dirão exatamente aquilo que esperamos ouvir delas, e que farão, de vontade própria, tudo aquilo que esperamos que façam em nosso favor, em benefício recíproco, em satisfação mútua. Estou imaginando demais?
Talvez, mas esta é a função de um minitratado como este: superar os limites legais, autorais, ou materiais, e deixar a imaginação correr solta, fazer tudo aquilo que uma imaginação fértil é capaz de fazer. Diferente da realidade, a imaginação não precisa ser alimentada, não depende de combustível ou de um motor de arranque. Só depende de nós mesmos, e de tudo aquilo que ousamos sonhar, de tudo aquilo que faz nossa felicidade, mesmo quando aparentemente não há esperança ou nos faltam os meios. A imaginação supre tudo isso, e é inesgotável, o próprio moto perpétuo.
Imagino, pelo menos, que seja assim...
Paulo Roberto de Almeida
(Brasília, 12 de fevereiro de 2011)
Paulo Roberto de Almeida
Diferentemente dos animais – embora aqueles que se consideram “íntimos” dos animais não acreditam que eles sejam uma exceção à regra –, todos nós, humanos, possuímos a faculdade inata da imaginação. Alguns mais do que outros, pois conheço aqueles que sonham acordados (eu mesmo, por exemplo). A imaginação nos foi dada de graça, no ato da criação – e não vai aqui nenhuma interpretação religiosa da criação humana – e ela vem, por assim dizer, no pacote original junto com todos os outros sentidos, aqueles cinco da versão consagrada, e mais alguns – ditos paranormais – que circulam em volta da gente, do nosso cérebro e também do nosso coração (ou que pelo menos se aproveitam da distração de alguns desses sentidos tradicionais para se imiscuir sorrateiramente em nossas vidas).
Mas a imaginação não é um simples sentido natural, e sim um ato da vontade, embora não possamos impedir nossa própria consciência de imaginar “coisas”. Mas essas coisas imaginadas são instruídas, orientadas, criadas e administradas por nós, como se fossemos um diretor de cinema ou de teatro, quando eles dizem aos atores como o script deve ser realmente lido e interpretado. A diferença é que estamos “dirigindo” nossas próprias vidas, ou aquela que imaginamos para nós. A imaginação também é um roteiro, um script que fazemos, que desfazemos, criamos e recriamos, modificamos e apagamos, o tempo todo, embora sempre sobra um resquício do que pensamos no fundo do cérebro, e que de vez em quando emerge contra a nossa própria vontade.
É isso: a imaginação é um script rebelde, que não respeita a direção que acreditamos desempenhar, e que nem aceita nenhuma outra representação, senão aquela mesma que queremos dar, naquele momento, mas que por vezes escapa ao nosso controle, qual um filho rebelde, um adolescente independente. Esse roteiro tem páginas em branco, mas também sofre mudanças imperceptíveis, mesmo contra a nossa vontade. Ela é difícil de domar a imaginação.
Será que, como nos tratados, ou minitratados (como este e alguns outros que já elaborei), a imaginação tem uma ordem pré-determinada, um arranjo fixo que dispõe sobre suas partes e componentes. Quais seriam? Talvez prólogo (ou preâmbulo), disposições preliminares (ou definições de conceitos), disposições principais, duração, membros do enredo (ou Estados partes), solução de controvérsias, cláusula de denúncia, disposições transitórias, local e data, assinatura do autor? Não creio. A imaginação – mesmo sendo objeto de um minitratado como este – não é assim tão burocrática e organizada, e sim caótica, errática, cheia de idas e vindas, conflitos íntimos e tensões externas, enfim, tudo aquilo que estamos no direito de esperar de uma imaginação dotada de plena capacidade para nos entreter, nos embriagar, trazer-nos alguma felicidade momentânea ou mergulhar-nos em algum estado depressivo temporário.
O que move a imaginação? As paixões, certamente. O amor, talvez o ódio, o afeto, a ambição, a cupidez, o egoísmo – enfim, vocês acrescentem os outros pecados capitais – mas também a generosidade, o desprendimento, o interesse, a curiosidade e tudo aquilo que movimenta o cérebro humano, sobretudo e principalmente nosso meio ambiente, a família, as experiências na escola, no trabalho, na rua, na vida, enfim. Tudo suscita e alimenta a imaginação, e houve até um filósofo – minha imaginação não me ajuda agora a relembrar o seu nome – que sugeriu que a própria existência humana era um ato de imaginação. Os surrealistas certamente já produziram obras que são pura imaginação, e por isso fizeram sucesso (alguns até extorquiram muito dinheiro dos incautos, que geralmente têm pouca imaginação).
Os desenhos animados, e até alguns filmes de ficção, costumam representar alguns espíritos malévolos como dotados de muita imaginação, geralmente retratados como aqueles personagens de testa alta, cérebro volumoso, neurônios agitados, quando não ligados a estranhos aparelhos que pretendem transformar essa imaginação – por definição perversa – em poder sobre os homens e sobre o mundo. Não gosto muito dessa “versão” da imaginação, e sim daquela que figura no script dos filmes românticos, das comédias espirituosas e otimistas, quando tudo no final se encaixa, para trazer toda a felicidade esperada aos dois heróis principais da história. Essa é sem dúvida a “imaginação” que todos gostaríamos que acontecesse conosco, pois ficamos o tempo todo torcendo para que o herói ou a mocinha superem os perigos que os cercam, escapem das garras dos vilões ocasionais e, por fim, se reencontrem ao final do script para nosso maior conforto e felicidade imaginária.
Nem todo mundo tem direito a uma versão terrena, ou seja, real, desse roteiro otimista, com música de fundo, cenários coloridos, dos filmes que adoramos assistir em momentos de détente. Sim, nem todo mundo tem condições de se realizar numa vida feliz, sem preocupações materiais e sem angústias amorosas. Mas todos nós, sem exceção, temos direito a nossa quota de imaginação, ou a quanta imaginação pudermos “suportar”, ao longo de uma vida que é também feita de cruas realidades, de notas baixas na escola, de cobranças do chefe no trabalho, de lista de compras a serem feitas imediatamente, de louça na pia e de trastes para jogar fora. Tudo isso não nos impede de sonhar acordados, mesmo quando estamos cuidando da louça na cozinha, saindo para passear os cachorros ou empurrando o carrinho no supermercado (atenção para não se enganar de produto, ou levar o que não precisa...).
A imaginação nos ajuda a suportar um mundo que pode ser momentaneamente insuportável, uma vida aborrecida, feita de frustrações ou de restrições materiais. Todos nós já nos imaginamos ganhando na loteria, com o que TODOS os nossos problemas estariam automaticamente resolvidos (ou pelo menos imaginamos que sim). Todos nós já imaginamos o amor perfeito, sem nenhuma briga, felicidade eterna e juventude idem... Enfim, sabemos que isso não existe, ou pelo menos não todo o tempo, mas não custa imaginar que sim...
Quando é que vamos nos livrar da imaginação, aquela que nos impede de dormir imediatamente de noite, quando precisamos acordar cedo na manhã seguinte? Acho que nunca, pois isso é impossível: mesmo quando a gente se esforça para ficar com a mente limpa, com o cérebro em branco, para adormecermos mais rapidamente, lá vem a imaginação, sorrateira, atrapalhar nossos planos e prolongar a vigília noturna. Bandida imaginação, a roubar-nos horas de sono, a propor coisas impossíveis, realizando nossos desejos de ganhos, de vingança, de conquistas afetivas e de escapadas oportunas. Como é bom imaginar que aquilo possa de fato acontecer!
Em nossa economia política da existência, a imaginação também obedece às misteriosas curvas da oferta e da demanda. Nós, como simples humanos, dotados de carências, vontades e desejos, demandamos imaginação, o tempo todo, numa curva infinita, quase uma reta, para cima, sempre. Nosso cérebro não se faz de rogado, e atende imediatamente a essas carências materiais ou virtuais e fornece todos os insumos de que necessitamos, quase uma cornucópia inesgotável obedecendo ao velho princípio socialista “a cada um segundo suas necessidades”. Mas aí, por algum motivo, nos chocamos com a realidade, com a disponibilidade de “fatores de produção”, e a curva é arrastada dolorosamente para baixo, até se encontrar com as possibilidades de atendimento da demanda. O ponto de equilíbrio – como em todas as equações econômicas – é sempre num nível mais baixo do que desejaríamos, pois como diriam os economistas realistas, não se pode ter canhões e manteiga ao mesmo tempo, pelo menos não nas quantidades desejadas. Temos de fazer escolhas, hélas!
Ao fim e ao cabo, a imaginação também nos ajuda nessas escolhas dolorosas, mas que têm de ser feitas: sabemos, por experiência e aprendizado, que temos de domar a imaginação, pelo menos no domínio dos meios materiais e da existência terrena. Mas nada nos impede de construir um mundo onírico, feito de imagens puras, pessoas ideais (até reais), situações e palavras agradáveis, totalmente submetidas ao nosso controle, como nesses teatros de bonecos, nos quais mexemos os personagens e inventamos as suas vozes, escolhemos suas palavras (que são aquelas que gostaríamos de dizer ou de ouvir, sem qualquer restrição da vontade alheia ou de copyright proprietário).
Como é bom imaginar que somos poderosos ao ponto de dominarmos até a imaginação de terceiras pessoas, que dirão exatamente aquilo que esperamos ouvir delas, e que farão, de vontade própria, tudo aquilo que esperamos que façam em nosso favor, em benefício recíproco, em satisfação mútua. Estou imaginando demais?
Talvez, mas esta é a função de um minitratado como este: superar os limites legais, autorais, ou materiais, e deixar a imaginação correr solta, fazer tudo aquilo que uma imaginação fértil é capaz de fazer. Diferente da realidade, a imaginação não precisa ser alimentada, não depende de combustível ou de um motor de arranque. Só depende de nós mesmos, e de tudo aquilo que ousamos sonhar, de tudo aquilo que faz nossa felicidade, mesmo quando aparentemente não há esperança ou nos faltam os meios. A imaginação supre tudo isso, e é inesgotável, o próprio moto perpétuo.
Imagino, pelo menos, que seja assim...
Paulo Roberto de Almeida
(Brasília, 12 de fevereiro de 2011)
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domingo, março 08, 2009
15) Minitratado das interrogações - Paulo Roberto de Almeida
Minitratado das interrogações
(você tem alguma dúvida a este respeito?)
Paulo Roberto de Almeida
Interrogantes são inerentes à espécie humana, e talvez mesmo a certos primatas. Determinadas escolhas, ou caminhos, nos levam a uma situação de melhor conforto material ou de maior segurança pessoal, sem que, no entanto, saibamos, ou tenhamos certeza, ao início, que aquela opção selecionada é, de fato, a de melhor retorno ou benefício possível. Dúvidas, questionamentos, angústias, em face das possibilidades abertas em nossa existência, são inevitáveis em todas as etapas e circunstâncias da vida. Daí a interrogação, normalmente simbolizada pelo sinal sinuoso que colocamos ao final de certas frases: ?
Nossos vizinhos ibéricos, ou melhor, hispano-parlantes ou hispanófonos, são mais diretos e explícitos, posto que já começam a frase interrogativa pelo sinal apropriado – ¿ – que creio deveríamos também importar para a língua portuguesa. É uma maneira clara e direta, pelo menos na expressão escrita, de deixar patente que nossas dúvidas vão do começo ao fim de um problema. Sempre é assim, pois a incerteza precede a reflexão e a própria ação (muitas vezes no escuro). Melhor, portanto, começar todo o processo pelo começo, que é a demonstração aberta de que somos ignorantes e desejamos ou precisamos saber algo que não sabemos previamente.
Tendo já escrito um mini-tratado das reticências – ver aqui – e um outro sobre as entrelinhas – aqui – creio poder oferecer agora algumas reflexões sobre nossa ignorância fundamental, ou pelo menos, nossas dúvidas iniciais, sempre presentes nas mais diferentes situações a que somos confrontados.
Não vou me estender sobre as dúvidas ‘científicas’, ou seja, pelos procedimentos normalmente associados a todo e qualquer esforço de pesquisa, de investigação, de busca de respostas a problemas objetivos da vida acadêmica ou empresarial: qual a origem e as causas deste fenômeno ou processo?; como atender a este determinado problema prático em nossas vidas, como maximizar a satisfação do cliente, ou ainda, como despertar-lhe desejos até aqui insuspeitos por novos produtos que simplesmente não existiam ou que o consumidor nem sabia, antes, de que tinha ‘necessidade’? Tampouco vou me ocupar das dúvidas governamentais: quais são as verdadeiras prioridades da população?; como distribuir os recursos escassos em função de múltiplas necessidades?; como prestar contas das escolhas oficiais e dizer aos eleitores que nem tudo é possível ser feito ao mesmo tempo? Vou me dedicar, apenas e tão somente, às interrogações simplesmente humanas, mais exatamente relacionais, posto que as dúvidas e questionamentos existem geralmente em situações de interação social: como devo responder a determinado impulso pessoal ou demanda externa?; que desculpa devo dar à minha inadimplência involuntária ou de pura distração?; que profissão escolher, que concurso público fazer, que estudos empreender, além e acima do ensino oficial?
A primeira coisa que poderia ser dito sobre as interrogações é que elas são, de certo modo, inevitáveis. Ninguém escolhe ter ou não ter questionamentos, pois eles surgem espontânea e involuntariamente, eu diria até inapelavelmente, no curso de nossa existência, sempre cheia de dúvidas e incertezas, sobretudo as de ordem moral e afetiva. Saber o que é o certo e o errado, em circunstâncias normais, pode parecer trivial, pois aprendemos no curso de nossa formação alguns ensinamentos de nossos pais ou educadores, que nos transmitem algum sentido do justo e do injusto, do que é permissível ou não em nossas ações que atingem nossos semelhantes ou até plantas e animais. Hoje em dia, aliás, com o politicamente correto e o ambientalmente desejável, nenhuma criança mais sai por aí esmagando formigas e minhocas com os pés, como fazíamos décadas atrás: todos sabemos que qualquer ser vivo cumpre uma função na grande cadeia da vida, assim que chegamos a poupar até baratas, sem dúvida alguma os seres mais nojentos que nos é dado encontrar na vida cotidiana (bem, alguns têm dúvidas, justamente, se ladrões de velhinhas, pedófilos estupradores e políticos desonestos também não mereceriam figurar ao lado das baratas, mas isso é controverso, duvidoso, interrogativo...).
Essas interrogações não são as mais difíceis, e sim aquelas que surgem do chamado custo-oportunidade: fazer ou não uma coisa que é errada, mas que nos vai trazer uma vantagem imediata, ou cumprir as normas sociais independentemente do custo que isso possa acarretar? Refiro-me, por exemplo, à necessidade de seguir, ou não, as limitações de velocidade, quando estamos atrasados para um encontro?: vale acelerar nos intervalos dos pardais, ou devemos seguir a norma mesmo sob risco de desatender um compromisso previamente fixado? Inventar uma desculpa esfarrapada para o chefe quando se deixou de cumprir uma tarefa corrente, ou simplesmente reconhecer que não teve tempo nem condições de terminar o trabalho em tempo hábil? Pequenos dilemas morais...
Mas, tudo isso faz parte das rotinas costumeiras. As interrogantes mais importantes em nossas vidas são aquelas que têm a ver com nossa vida afetiva, com os compromissos assumidos com aqueles que nos são próximos, com as escolhas que temos de fazer e que determinam, em grande medida, o quantum de felicidade de que poderemos usufruir em nossa vida adulta e responsável. O cérebro, certamente, tem muitos interrogantes, inúmeros questionamentos, mas o coração tem muito mais, infindáveis dúvidas sobre o que fazer para trazer aquele sentido de paz interior que todos desejamos desfrutar, aquela sensação de prazer sensual que nos julgamos aptos a usufruir, um sentimento de plenitude na expressão de nossas paixões: amar e ser amado são, possivelmente, duas das mais poderosas forças de que dispomos, ou que nos “invadem” naturalmente em nossa existência, junto com o sentimento de medo (ou pavor), a insegurança física, o desconforto alimentar, o instinto sexual, a raiva (ou ódio) que naturalmente aflora em situações de grande stress emocional, causadas por alguma fonte identificável de agressão física ou moral contra nossas pessoas.
Deixando de lado todas as incertezas associadas a essas circunstâncias ou situações mais estressantes, as interrogações mais importantes em nossas vidas são essas mesmas: serei capaz de amar e ser amado pela pessoa ideal, encontrarei, em primeiro lugar, a pessoa ideal, saberei corresponder às expectativas dessa pessoa, poderá ela satisfazer minhas necessidades mais importantes como pessoa singular, saberei eu preencher sua vida como um par perfeito, estou pronto para assumir os encargos e obrigações de uma relação que, a rigor, deve ser considerada exclusiva?
Mas essas são interrogações iniciais, prévias e antecedentes, se poderia dizer. O que se segue é tão ou mais importante do que aquelas: por que não fui capaz de agir de outra maneira e coloquei tudo a perder?; por que fui tão inconsciente, ou egoísta, que afastei aquela pessoa amada de mim?; como devo proceder para reparar os erros cometidos?; como voltar para trás e recomeçar em novas bases?; seria isto verdadeiramente possível, imaginável, factível?; aceitaria a pessoa amada um retorno a algum status quo ante?; seria ela capaz de me perdoar, ou estaria eu disposto a perdoar alguém que me magoou e que feriu meu coração?; como posso fazer para reencontrar a paz e voltar a viver uma vida de felicidade e de contentamento interior, que é também um compromisso moral com alguma outra pessoa?
Existem, também, as interrogações ainda mais sérias, ou dramáticas: por que não fui até agora capaz de encontrar a ‘pessoa certa’?; por que a ‘vida’ me denegou o prazer de encontrar minha cara metade?; por que é tão difícil viver o relacionamento ‘ideal’?; ou por que fui perder aquilo que já tinha, num momento de puro egoísmo ou de completa desatenção com as necessidades daquela companhia? Estas são questões que nos colocamos em diferentes momentos da vida, interrogantes que todos nós, e cada um, já tivemos oportunidade de nos fazer em algum momento passado ou presente. E, também, não sabemos ao certo ser teremos de fazer as mesmas questões, ou seus equivalentes funcionais, em algum momento do futuro...
As mesmas questões também se colocam em sentido assimétrico, isto é, não diretamente relacional. São inúmeros os casos, talvez a maioria, em que o objeto do amor, da paixão, da sedução ou da conquista, qualquer que seja o termo apropriado, não está vinculado ao seu ponto de origem, isto é, não obtém correspondência direta. São os casos clássicos do triangulo, ou quadrilátero (ou polígono) amoroso: João que amava Maria, que amava José, que amava... Tudo isso é muito complicado, e só podemos nos colocar uma pergunta irrespondível: por que as coisas têm de ser assim e não de outra forma?; por que somos capazes de fazer mal, involuntariamente, a quem nos ama, sem que sejamos capazes de reparar esse mal, ou de encontrar, em outra situação, uma compensação, parcial que seja, ao nosso próprio sofrimento da lacuna aferida?; por que o destino, ou a fatalidade, nos prega tantas surpresas?
Não existem, obviamente, respostas fáceis, ou sequer possíveis, a todas essas questões. Nem sei se vale a pena colocá-las, já que elas não cabem num mini-tratado e constituem, mais propriamente, o livro mesmo da humanidade: imenso, interminável, contraditório, frustrante e cheio de realizações notáveis como a vida mesmo. Nenhuma ‘teoria dos sentimentos morais’ – para retomar o título de um dos livros do singular personagem social que foi Adam Smith – pode preencher ou eliminar as lacunas e dúvidas de nossa existência, que são ou estão ligadas nosso lado afetivo e amoroso. Não tenho a pretensão de esgotar ou de sequer aflorar todos os matizes do imenso painel de incertezas e interrogantes que constitui o coração humano. Mesmo tirando o coração do jogo – para os muitos materialistas – resta a química inescrutável de nossos neurônios, uma combinação provavelmente mais numerosa do que o número de objetos estelares, uma equação única e sempre mutável, posto que amamos e ‘desamamos’ sem qualquer regra ou compulsão pré-determinada, sem qualquer ordem racionalmente identificável. Ou seja, as interrogações continuam em número infinito em quaisquer circunstâncias...
Como não pretendo fazer deste ensaio interrogativo mais uma derivação de meu mini-tratado das reticências e como não pretendo que ele seja lido nas entrelinhas, prefiro, talvez, terminar o meu texto com algumas certezas pessoais que podem – ou não, a interrogante é de rigor – ajudar-nos a viver uma existência melhor com todas as questões que subsistem, são criadas de modo contínuo e continuarão a freqüentar a nossa existência pelo tempo disponível: se quisermos, essas minhas certezas constituem a minha ‘teoria dos sentimentos morais’, sem que eu deva copyright ou moral rights a quem quer que seja.
Acredito, sinceramente, que devemos pautar nossa existência por uma ‘lei’ da utilidade moral: fazer tudo aquilo que desejaríamos que outros nos fizessem, o que é velho como o cristianismo ou budismo, para ficar em duas filosofias de vida – não as considero como religiões, na perspectiva aqui retida – amplamente aceitáveis no plano moral ou social. Mais do que isso: devemos esforçar-nos para tornar a vida de outros ainda melhor, no plano dos confortos pessoais e materiais, do que aquela que nos foi dado contemplar ao tomarmos contato com essas relações voluntariamente aceitas, como parte de nossa existência. O bem que poderemos trazer aos seres que nos são próximos nos fará sentir uma satisfação superior à da própria perseguição de prazeres individuais, ainda que o egoísmo em causa própria não deva ser considerado sempre como um sinal de mesquinhez ou auto-suficiência: somos ‘mandatados’ naturalmente para buscar nossa felicidade pessoal, e isso implica algum egoísmo, sem dúvida.
As ‘injustiças’ cometidas contra nós nem sempre são o resultado do acaso ou derivadas da vontade unilateral de algum agente, mas podem ter a ver, justamente, com nossos pequenos egoísmos na vida cotidiana, nossas desatenções e equívocos – alguns deles cometidos de modo involuntário – que infligimos a outros muitas vezes sem perceber. As frustrações que experimentamos estão sempre colocadas num contexto relacional e, pelo menos em parte, ainda que minimamente, derivam de alguma ação anterior que conduzimos de modo leviano ou impensado. Por isso devemos ser o máximo tolerantes com os pequenos – alguns grandes – problemas criados num ambiente relacional, e tentar ver esse problema também da perspectiva da outra parte.
O mais importante, talvez, seja o ato de ‘ser bom’, qualquer que seja o significado que possamos dar a essa atitude ou postura. Ser bom nem sempre é ser caridoso, compassivo, benemérito. Significa, simplesmente, olhar para os outros e ver o que poderíamos fazer de bom, ou de útil, que melhore a vida humana sobre a terra, por mínimo que seja o gesto, por insignificante que seja o esforço: vale a motivação interior.
Tudo isso, evidentemente, tem mais a ver com algumas poucas certezas morais do que com as grandes incertezas no amor, ou no afeto, onde as interrogações permanecem ‘incuráveis’, se ouso dizer. Na verdade, o amor é um bem raro, algo extremamente raro para ser mais exato, ainda que ela se apresente e desapareça com muita facilidade de trânsito, se me permitem a expressão. Sendo raro, ele preenche aquela condição que os economistas estabelecem para a escassez relativa de bens: um valor de uso muito apreciado, mas um valor de troca bastante elevado, impossível de ser claramente posicionado nas curvas de oferta e demanda. Para ser mais exato, não há equilíbrio de mercado nessas coisas do amor, daí as questões e interrogações ainda maiores do que aquelas normalmente colocadas em situações de insuficiência de oferta e procura ilimitada. Curva, linha reta, parábola, linha elíptica de tendência, U, V, L, todas as posições e direções são possíveis no amor e não existe equação ou função capaz de apreender o comportamento de ‘elusive good’ e responder a todas as dúvidas do ‘consumidor’ (ou ‘produtor’) de amor. Somos parte interessada e estamos sempre nas duas pontas da equação, daí a sensação de uma equação que ‘não fecha’.
De certa forma, isso é natural, mas a verdade é que simplesmente não sabemos como fechar essa equação, toda ela dominada por imponderáveis, ambigüidades, incertezas, indefinições, enfim, interrogantes e questões não respondidas...
Assim é, e assim sempre será nestas matérias, para as quais nenhum mini (ou grande) tratado oferece conforto ou refúgio. Não tenho nenhum problema em reconhecer que este meu texto oferece muito mais interrogantes do que certezas, mais dúvidas do que respostas prontas, e ele é muito menos um ‘tratado’ – ou seja um corpo coerente de doutrina, com definições e respostas precisas – do que um livro aberto aos questionamentos. Mas é também verdade que, qualquer abordagem de um problema determinado deve começar, metodologicamente, por colocar, se não todas as questões, pelo menos as boas questões. Quanto ao esforço de síntese, ou o trabalho de responder a todas elas, isso fica para o paciente esforço monográfico para esgotar o problema em questão: como não pretendo fechar nenhuma questão, e tenho minhas próprias interrogações sobre todos os problemas aqui discutidos, fico com a proposta inicial de oferecer um rol de questões, tão simplesmente.
Esperando não ter decepcionado meus poucos leitores, termino com uma pergunta ao leitor insatisfeito: você teria feito melhor?
Brasília, 8 de março de 2009
(você tem alguma dúvida a este respeito?)
Paulo Roberto de Almeida
Interrogantes são inerentes à espécie humana, e talvez mesmo a certos primatas. Determinadas escolhas, ou caminhos, nos levam a uma situação de melhor conforto material ou de maior segurança pessoal, sem que, no entanto, saibamos, ou tenhamos certeza, ao início, que aquela opção selecionada é, de fato, a de melhor retorno ou benefício possível. Dúvidas, questionamentos, angústias, em face das possibilidades abertas em nossa existência, são inevitáveis em todas as etapas e circunstâncias da vida. Daí a interrogação, normalmente simbolizada pelo sinal sinuoso que colocamos ao final de certas frases: ?
Nossos vizinhos ibéricos, ou melhor, hispano-parlantes ou hispanófonos, são mais diretos e explícitos, posto que já começam a frase interrogativa pelo sinal apropriado – ¿ – que creio deveríamos também importar para a língua portuguesa. É uma maneira clara e direta, pelo menos na expressão escrita, de deixar patente que nossas dúvidas vão do começo ao fim de um problema. Sempre é assim, pois a incerteza precede a reflexão e a própria ação (muitas vezes no escuro). Melhor, portanto, começar todo o processo pelo começo, que é a demonstração aberta de que somos ignorantes e desejamos ou precisamos saber algo que não sabemos previamente.
Tendo já escrito um mini-tratado das reticências – ver aqui – e um outro sobre as entrelinhas – aqui – creio poder oferecer agora algumas reflexões sobre nossa ignorância fundamental, ou pelo menos, nossas dúvidas iniciais, sempre presentes nas mais diferentes situações a que somos confrontados.
Não vou me estender sobre as dúvidas ‘científicas’, ou seja, pelos procedimentos normalmente associados a todo e qualquer esforço de pesquisa, de investigação, de busca de respostas a problemas objetivos da vida acadêmica ou empresarial: qual a origem e as causas deste fenômeno ou processo?; como atender a este determinado problema prático em nossas vidas, como maximizar a satisfação do cliente, ou ainda, como despertar-lhe desejos até aqui insuspeitos por novos produtos que simplesmente não existiam ou que o consumidor nem sabia, antes, de que tinha ‘necessidade’? Tampouco vou me ocupar das dúvidas governamentais: quais são as verdadeiras prioridades da população?; como distribuir os recursos escassos em função de múltiplas necessidades?; como prestar contas das escolhas oficiais e dizer aos eleitores que nem tudo é possível ser feito ao mesmo tempo? Vou me dedicar, apenas e tão somente, às interrogações simplesmente humanas, mais exatamente relacionais, posto que as dúvidas e questionamentos existem geralmente em situações de interação social: como devo responder a determinado impulso pessoal ou demanda externa?; que desculpa devo dar à minha inadimplência involuntária ou de pura distração?; que profissão escolher, que concurso público fazer, que estudos empreender, além e acima do ensino oficial?
A primeira coisa que poderia ser dito sobre as interrogações é que elas são, de certo modo, inevitáveis. Ninguém escolhe ter ou não ter questionamentos, pois eles surgem espontânea e involuntariamente, eu diria até inapelavelmente, no curso de nossa existência, sempre cheia de dúvidas e incertezas, sobretudo as de ordem moral e afetiva. Saber o que é o certo e o errado, em circunstâncias normais, pode parecer trivial, pois aprendemos no curso de nossa formação alguns ensinamentos de nossos pais ou educadores, que nos transmitem algum sentido do justo e do injusto, do que é permissível ou não em nossas ações que atingem nossos semelhantes ou até plantas e animais. Hoje em dia, aliás, com o politicamente correto e o ambientalmente desejável, nenhuma criança mais sai por aí esmagando formigas e minhocas com os pés, como fazíamos décadas atrás: todos sabemos que qualquer ser vivo cumpre uma função na grande cadeia da vida, assim que chegamos a poupar até baratas, sem dúvida alguma os seres mais nojentos que nos é dado encontrar na vida cotidiana (bem, alguns têm dúvidas, justamente, se ladrões de velhinhas, pedófilos estupradores e políticos desonestos também não mereceriam figurar ao lado das baratas, mas isso é controverso, duvidoso, interrogativo...).
Essas interrogações não são as mais difíceis, e sim aquelas que surgem do chamado custo-oportunidade: fazer ou não uma coisa que é errada, mas que nos vai trazer uma vantagem imediata, ou cumprir as normas sociais independentemente do custo que isso possa acarretar? Refiro-me, por exemplo, à necessidade de seguir, ou não, as limitações de velocidade, quando estamos atrasados para um encontro?: vale acelerar nos intervalos dos pardais, ou devemos seguir a norma mesmo sob risco de desatender um compromisso previamente fixado? Inventar uma desculpa esfarrapada para o chefe quando se deixou de cumprir uma tarefa corrente, ou simplesmente reconhecer que não teve tempo nem condições de terminar o trabalho em tempo hábil? Pequenos dilemas morais...
Mas, tudo isso faz parte das rotinas costumeiras. As interrogantes mais importantes em nossas vidas são aquelas que têm a ver com nossa vida afetiva, com os compromissos assumidos com aqueles que nos são próximos, com as escolhas que temos de fazer e que determinam, em grande medida, o quantum de felicidade de que poderemos usufruir em nossa vida adulta e responsável. O cérebro, certamente, tem muitos interrogantes, inúmeros questionamentos, mas o coração tem muito mais, infindáveis dúvidas sobre o que fazer para trazer aquele sentido de paz interior que todos desejamos desfrutar, aquela sensação de prazer sensual que nos julgamos aptos a usufruir, um sentimento de plenitude na expressão de nossas paixões: amar e ser amado são, possivelmente, duas das mais poderosas forças de que dispomos, ou que nos “invadem” naturalmente em nossa existência, junto com o sentimento de medo (ou pavor), a insegurança física, o desconforto alimentar, o instinto sexual, a raiva (ou ódio) que naturalmente aflora em situações de grande stress emocional, causadas por alguma fonte identificável de agressão física ou moral contra nossas pessoas.
Deixando de lado todas as incertezas associadas a essas circunstâncias ou situações mais estressantes, as interrogações mais importantes em nossas vidas são essas mesmas: serei capaz de amar e ser amado pela pessoa ideal, encontrarei, em primeiro lugar, a pessoa ideal, saberei corresponder às expectativas dessa pessoa, poderá ela satisfazer minhas necessidades mais importantes como pessoa singular, saberei eu preencher sua vida como um par perfeito, estou pronto para assumir os encargos e obrigações de uma relação que, a rigor, deve ser considerada exclusiva?
Mas essas são interrogações iniciais, prévias e antecedentes, se poderia dizer. O que se segue é tão ou mais importante do que aquelas: por que não fui capaz de agir de outra maneira e coloquei tudo a perder?; por que fui tão inconsciente, ou egoísta, que afastei aquela pessoa amada de mim?; como devo proceder para reparar os erros cometidos?; como voltar para trás e recomeçar em novas bases?; seria isto verdadeiramente possível, imaginável, factível?; aceitaria a pessoa amada um retorno a algum status quo ante?; seria ela capaz de me perdoar, ou estaria eu disposto a perdoar alguém que me magoou e que feriu meu coração?; como posso fazer para reencontrar a paz e voltar a viver uma vida de felicidade e de contentamento interior, que é também um compromisso moral com alguma outra pessoa?
Existem, também, as interrogações ainda mais sérias, ou dramáticas: por que não fui até agora capaz de encontrar a ‘pessoa certa’?; por que a ‘vida’ me denegou o prazer de encontrar minha cara metade?; por que é tão difícil viver o relacionamento ‘ideal’?; ou por que fui perder aquilo que já tinha, num momento de puro egoísmo ou de completa desatenção com as necessidades daquela companhia? Estas são questões que nos colocamos em diferentes momentos da vida, interrogantes que todos nós, e cada um, já tivemos oportunidade de nos fazer em algum momento passado ou presente. E, também, não sabemos ao certo ser teremos de fazer as mesmas questões, ou seus equivalentes funcionais, em algum momento do futuro...
As mesmas questões também se colocam em sentido assimétrico, isto é, não diretamente relacional. São inúmeros os casos, talvez a maioria, em que o objeto do amor, da paixão, da sedução ou da conquista, qualquer que seja o termo apropriado, não está vinculado ao seu ponto de origem, isto é, não obtém correspondência direta. São os casos clássicos do triangulo, ou quadrilátero (ou polígono) amoroso: João que amava Maria, que amava José, que amava... Tudo isso é muito complicado, e só podemos nos colocar uma pergunta irrespondível: por que as coisas têm de ser assim e não de outra forma?; por que somos capazes de fazer mal, involuntariamente, a quem nos ama, sem que sejamos capazes de reparar esse mal, ou de encontrar, em outra situação, uma compensação, parcial que seja, ao nosso próprio sofrimento da lacuna aferida?; por que o destino, ou a fatalidade, nos prega tantas surpresas?
Não existem, obviamente, respostas fáceis, ou sequer possíveis, a todas essas questões. Nem sei se vale a pena colocá-las, já que elas não cabem num mini-tratado e constituem, mais propriamente, o livro mesmo da humanidade: imenso, interminável, contraditório, frustrante e cheio de realizações notáveis como a vida mesmo. Nenhuma ‘teoria dos sentimentos morais’ – para retomar o título de um dos livros do singular personagem social que foi Adam Smith – pode preencher ou eliminar as lacunas e dúvidas de nossa existência, que são ou estão ligadas nosso lado afetivo e amoroso. Não tenho a pretensão de esgotar ou de sequer aflorar todos os matizes do imenso painel de incertezas e interrogantes que constitui o coração humano. Mesmo tirando o coração do jogo – para os muitos materialistas – resta a química inescrutável de nossos neurônios, uma combinação provavelmente mais numerosa do que o número de objetos estelares, uma equação única e sempre mutável, posto que amamos e ‘desamamos’ sem qualquer regra ou compulsão pré-determinada, sem qualquer ordem racionalmente identificável. Ou seja, as interrogações continuam em número infinito em quaisquer circunstâncias...
Como não pretendo fazer deste ensaio interrogativo mais uma derivação de meu mini-tratado das reticências e como não pretendo que ele seja lido nas entrelinhas, prefiro, talvez, terminar o meu texto com algumas certezas pessoais que podem – ou não, a interrogante é de rigor – ajudar-nos a viver uma existência melhor com todas as questões que subsistem, são criadas de modo contínuo e continuarão a freqüentar a nossa existência pelo tempo disponível: se quisermos, essas minhas certezas constituem a minha ‘teoria dos sentimentos morais’, sem que eu deva copyright ou moral rights a quem quer que seja.
Acredito, sinceramente, que devemos pautar nossa existência por uma ‘lei’ da utilidade moral: fazer tudo aquilo que desejaríamos que outros nos fizessem, o que é velho como o cristianismo ou budismo, para ficar em duas filosofias de vida – não as considero como religiões, na perspectiva aqui retida – amplamente aceitáveis no plano moral ou social. Mais do que isso: devemos esforçar-nos para tornar a vida de outros ainda melhor, no plano dos confortos pessoais e materiais, do que aquela que nos foi dado contemplar ao tomarmos contato com essas relações voluntariamente aceitas, como parte de nossa existência. O bem que poderemos trazer aos seres que nos são próximos nos fará sentir uma satisfação superior à da própria perseguição de prazeres individuais, ainda que o egoísmo em causa própria não deva ser considerado sempre como um sinal de mesquinhez ou auto-suficiência: somos ‘mandatados’ naturalmente para buscar nossa felicidade pessoal, e isso implica algum egoísmo, sem dúvida.
As ‘injustiças’ cometidas contra nós nem sempre são o resultado do acaso ou derivadas da vontade unilateral de algum agente, mas podem ter a ver, justamente, com nossos pequenos egoísmos na vida cotidiana, nossas desatenções e equívocos – alguns deles cometidos de modo involuntário – que infligimos a outros muitas vezes sem perceber. As frustrações que experimentamos estão sempre colocadas num contexto relacional e, pelo menos em parte, ainda que minimamente, derivam de alguma ação anterior que conduzimos de modo leviano ou impensado. Por isso devemos ser o máximo tolerantes com os pequenos – alguns grandes – problemas criados num ambiente relacional, e tentar ver esse problema também da perspectiva da outra parte.
O mais importante, talvez, seja o ato de ‘ser bom’, qualquer que seja o significado que possamos dar a essa atitude ou postura. Ser bom nem sempre é ser caridoso, compassivo, benemérito. Significa, simplesmente, olhar para os outros e ver o que poderíamos fazer de bom, ou de útil, que melhore a vida humana sobre a terra, por mínimo que seja o gesto, por insignificante que seja o esforço: vale a motivação interior.
Tudo isso, evidentemente, tem mais a ver com algumas poucas certezas morais do que com as grandes incertezas no amor, ou no afeto, onde as interrogações permanecem ‘incuráveis’, se ouso dizer. Na verdade, o amor é um bem raro, algo extremamente raro para ser mais exato, ainda que ela se apresente e desapareça com muita facilidade de trânsito, se me permitem a expressão. Sendo raro, ele preenche aquela condição que os economistas estabelecem para a escassez relativa de bens: um valor de uso muito apreciado, mas um valor de troca bastante elevado, impossível de ser claramente posicionado nas curvas de oferta e demanda. Para ser mais exato, não há equilíbrio de mercado nessas coisas do amor, daí as questões e interrogações ainda maiores do que aquelas normalmente colocadas em situações de insuficiência de oferta e procura ilimitada. Curva, linha reta, parábola, linha elíptica de tendência, U, V, L, todas as posições e direções são possíveis no amor e não existe equação ou função capaz de apreender o comportamento de ‘elusive good’ e responder a todas as dúvidas do ‘consumidor’ (ou ‘produtor’) de amor. Somos parte interessada e estamos sempre nas duas pontas da equação, daí a sensação de uma equação que ‘não fecha’.
De certa forma, isso é natural, mas a verdade é que simplesmente não sabemos como fechar essa equação, toda ela dominada por imponderáveis, ambigüidades, incertezas, indefinições, enfim, interrogantes e questões não respondidas...
Assim é, e assim sempre será nestas matérias, para as quais nenhum mini (ou grande) tratado oferece conforto ou refúgio. Não tenho nenhum problema em reconhecer que este meu texto oferece muito mais interrogantes do que certezas, mais dúvidas do que respostas prontas, e ele é muito menos um ‘tratado’ – ou seja um corpo coerente de doutrina, com definições e respostas precisas – do que um livro aberto aos questionamentos. Mas é também verdade que, qualquer abordagem de um problema determinado deve começar, metodologicamente, por colocar, se não todas as questões, pelo menos as boas questões. Quanto ao esforço de síntese, ou o trabalho de responder a todas elas, isso fica para o paciente esforço monográfico para esgotar o problema em questão: como não pretendo fechar nenhuma questão, e tenho minhas próprias interrogações sobre todos os problemas aqui discutidos, fico com a proposta inicial de oferecer um rol de questões, tão simplesmente.
Esperando não ter decepcionado meus poucos leitores, termino com uma pergunta ao leitor insatisfeito: você teria feito melhor?
Brasília, 8 de março de 2009
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quinta-feira, janeiro 22, 2009
14) Minitratado das entrelinhas - Paulo Roberto de Almeida
Minitratado das entrelinhas
Paulo Roberto de Almeida
Quote:
Sempre me encantaram as entrelinhas. O que não está posto é que encerra a possibilidade, o sugerido é que comanda a liberdade de interpretar. Uma reticência bem colocada, por exemplo, é capaz de acomodar os ânimos mais opostos. Penso que a um diplomata se deve ensinar tanto a arte-manha das palavras quanto a dos silêncios. Assim como devemos, na religião, reservar um espaço ao Mistério, forçoso, entre as linhas, reservar um horizonte em branco, ou no máximo pontilhado...
Unquote.
Tratados, em geral, costumam ser solenes, como convém aos grandes textos declaratórios, escritos em tom impessoal e devendo refletir alguma realidade objetiva, uma relação entre Estados, um contrato entre as partes, com deveres e obrigações compartilhados e estritamente observados pelo tempo previsto de duração. Eles são, se podemos dizer, o retrato de uma relação de confiança, fundada na boa-fé, pensada para construir algo de positivo para todos aqueles que por eles decidem se obrigar e, por isso mesmo, tão carregados de certezas quanto desprovidos de ambigüidades. Eles devem, sobretudo, ser lidos literalmente, com perdão pela redundância, sem qualquer distorção de sentido ou de intenção, ou pelo menos deixando um espaço mínimo para as interpretações (que fazem a alegria dos advogados, mas o desespero dos juízes).
Minitratados, por suposição, deveriam ser versões reduzidas de seus irmãos maiores, contendo um mínimo de disposições num espaço restrito, mas este não é o caso dos meus mini-tratados, cuja função é exclusivamente para falar de sentimentos. Anos atrás, ao inaugurar a série, escrevi um minitratado das reticências (subtítulo: “em defesa de uma inutilidade necessária…”), que especulava, na verdade, sobre as indecisões da vida, os episódios de ambigüidade relacional que, vez ou outra, sempre enfrentamos, com bom humor ou com preocupação, mas que são inevitáveis em toda trajetória sentimental. (Ver esse primeiro minitratado num dos meus blogs, neste link)
As reticências, em todo caso, são mais fáceis de serem manipuladas do que as entrelinhas. Afinal de contas, elas podem ser jogadas aqui e ali, no meio ou no final do texto, segundo a vontade exclusiva do autor, um pouco para demonstrar suas pequenas continuidades descontínuas... Elas talvez funcionem como as crases, que, no dizer de Millor Fernandes, não foram feitas para humilhar ninguém, apenas estão ali para ajudar em caso de necessidade. As entrelinhas, por sua vez, podem existir ou não e todo o problema consiste em saber se elas estão, de fato, ali e o que podem fazer por nós. (Bem, mas talvez eu as esteja confundindo com as reticências...)
No caso das entrelinhas, seu principal problema, justamente, é que elas se escondem entre as linhas do texto, capciosamente, e não é fácil adivinhar o que, de verdade, elas estão querendo dizer. Tudo depende da interpretação que se pretende dar ao texto. Mas, pensando bem, se o texto é do próprio, ele pode “colocar” suas entrelinhas onde bem entender, certo? Nada, absolutamente nada, na vida de um mero redator de linhas tortas, na de um escrevinhador de ensaios surrealistas, ou mesmo na de um diplomata responsável por convenções e tratados, nada deveria impedir esse senhor da escrita de depositar (ou até de jogar) suas entrelinhas onde bem entendesse.
Bingo! Aí está a grande utilidade das entrelinhas: elas permitem, justamente, que possamos retirar de um texto texto qualquer aquilo que pretendemos, elas nos dão uma liberdade fundamental: a de ler um texto onde não existe nenhum texto, apenas a imaginação.
Bingo bis! Está aí: as entrelinhas nos libertam da rigidez dos contratos formais e daqueles compromissos muito estritos. Elas “estão” ali para nos dizer: aproveite, rapaz, levante os olhos desse texto chato e deixe voar a sua imaginação. Como diz a minha epígrafe bem escolhida, elas encerram uma possibilidade, sugerem a liberdade de interpretar, são capazes de acomodar os ânimos mais opostos... (ops, sem querer voltei às minhas reticências...).
Acredito que o autor (ou a autora) da epígrafe refletiu muito sobre a vida, seus contornos, seus retornos, suas surpresas e seus imponderáveis. Ele (ou ela) pode estar querendo dizer algo com seu minúsculo tratado sobre as entrelinhas. Deve ser alguém com experiência no manejo da palavra escrita e, sobretudo, dos sentimentos, seus e os alheios. Deve ter dedicado muitas linhas ambíguas a um amigo distante ou fora do seu alcance, momentaneamente. Refletiu muito sobre a vida e o coração, certamente...
A mim, também, como ao/à epigrafista, sempre me encantaram as entrelinhas. Curioso que, ainda antes de ter recebido as palavras em epígrafe, de uma maneira que agora me escapa, eu já tinha planejado escrever o meu mini-tratado das entrelinhas, precedendo uma poesia sobre os dois pontos e um mini-conto sobre o ponto e vírgula (todos eles sinais ambíguos, como o leitor há de perceber, promessas de algo mais, janelas para rotas ainda não determinadas, abertura para possibilidades imensas de dúvidas e de reflexões...). Eu ainda não tinha o formato definitivo deste novo mini-tratado, mas pretendia que ele fosse tão “obscuro” quanto o primeiro, das reticências, tão cheio de promessas quanto um travesssão de diálogo, tão aberto às confusões da mente quanto um salto de parágrafo, tão surpreendente quanto uma exclamação e tão questionador quanto um ponto de interrogação. Sou um diacrítico da escrita...
Pois eu fiquei muito meses parado, como que dominado por um ponto final, até que o/a epigrafista socorreu-me com suas frases esclarecedoras. Abriu-se todo um novo capítulo e eu resolvi escrever este texto, que, se não tem bem a forma de um mini-tratado, pretende pelo menos retomar a tradição dos diálogos peripatéticos, uma conversa com um interlocutor qualquer, que nos acompanha por um breve momento em nossa trajetória de pensamentos e reflexões. Uma rota ainda aberta, espero...
No silêncio de uma tela de computador, também há um pouco do mistério que ficou para trás, experiências que deixaram suas marcas em nossas mentes, sensações que ocuparam por alguns momentos nossos corações (ou que ainda estão lá...). São esses estados de espírito que estão presentes nas entrelinhas: eles não são visíveis, mas estão ali para os que sabem ver e sentir...
Na verdade, como sabem os cartógrafos, geógrafos, topógrafos e, em especial, os poetas, o horizonte é uma linha elástica, que recua cada vez que nos aproximamos dela. Sua paciência é infinita, assim como são infinitas as possibilidades abertas pelas entrelinhas... (ainda mais com reticências, desculpem a insistência...).
Eu queria dizer ao/à epigrafista involutário(a), que ele(a) muito me ajudou na tarefa de juntar minhas poucas idéias sobre as entrelinhas. Sem os conceitos ali transcritos eu jamais teria descoberto o poder secreto das entrelinhas, talvez eu nunca me decidisse por escrever este texto, todo ele feito nas entrelinhas. Não sei se ele será capaz, como escrito na epígrafe, de acomodar ânimos opostos, mas ele certamente ajuda a construir um cenário de mistério, um horizonte de esperança, uma promessa não cumprida. Eu consigo ver, nas entrelinhas deste meu texto, possibilidades ainda não exploradas, sugestões nunca realizadas, sonhos muitas vezes sonhados e ainda não acontecidos, pelo menos, até agora. Mas isto nada prejulga quanto ao futuro...
É tudo o que se espera, aliás, de um mini-tratado sobre as entrelinhas...
Brasília, 22 de janeiro de 2009.
Paulo Roberto de Almeida
Quote:
Sempre me encantaram as entrelinhas. O que não está posto é que encerra a possibilidade, o sugerido é que comanda a liberdade de interpretar. Uma reticência bem colocada, por exemplo, é capaz de acomodar os ânimos mais opostos. Penso que a um diplomata se deve ensinar tanto a arte-manha das palavras quanto a dos silêncios. Assim como devemos, na religião, reservar um espaço ao Mistério, forçoso, entre as linhas, reservar um horizonte em branco, ou no máximo pontilhado...
Unquote.
Tratados, em geral, costumam ser solenes, como convém aos grandes textos declaratórios, escritos em tom impessoal e devendo refletir alguma realidade objetiva, uma relação entre Estados, um contrato entre as partes, com deveres e obrigações compartilhados e estritamente observados pelo tempo previsto de duração. Eles são, se podemos dizer, o retrato de uma relação de confiança, fundada na boa-fé, pensada para construir algo de positivo para todos aqueles que por eles decidem se obrigar e, por isso mesmo, tão carregados de certezas quanto desprovidos de ambigüidades. Eles devem, sobretudo, ser lidos literalmente, com perdão pela redundância, sem qualquer distorção de sentido ou de intenção, ou pelo menos deixando um espaço mínimo para as interpretações (que fazem a alegria dos advogados, mas o desespero dos juízes).
Minitratados, por suposição, deveriam ser versões reduzidas de seus irmãos maiores, contendo um mínimo de disposições num espaço restrito, mas este não é o caso dos meus mini-tratados, cuja função é exclusivamente para falar de sentimentos. Anos atrás, ao inaugurar a série, escrevi um minitratado das reticências (subtítulo: “em defesa de uma inutilidade necessária…”), que especulava, na verdade, sobre as indecisões da vida, os episódios de ambigüidade relacional que, vez ou outra, sempre enfrentamos, com bom humor ou com preocupação, mas que são inevitáveis em toda trajetória sentimental. (Ver esse primeiro minitratado num dos meus blogs, neste link)
As reticências, em todo caso, são mais fáceis de serem manipuladas do que as entrelinhas. Afinal de contas, elas podem ser jogadas aqui e ali, no meio ou no final do texto, segundo a vontade exclusiva do autor, um pouco para demonstrar suas pequenas continuidades descontínuas... Elas talvez funcionem como as crases, que, no dizer de Millor Fernandes, não foram feitas para humilhar ninguém, apenas estão ali para ajudar em caso de necessidade. As entrelinhas, por sua vez, podem existir ou não e todo o problema consiste em saber se elas estão, de fato, ali e o que podem fazer por nós. (Bem, mas talvez eu as esteja confundindo com as reticências...)
No caso das entrelinhas, seu principal problema, justamente, é que elas se escondem entre as linhas do texto, capciosamente, e não é fácil adivinhar o que, de verdade, elas estão querendo dizer. Tudo depende da interpretação que se pretende dar ao texto. Mas, pensando bem, se o texto é do próprio, ele pode “colocar” suas entrelinhas onde bem entender, certo? Nada, absolutamente nada, na vida de um mero redator de linhas tortas, na de um escrevinhador de ensaios surrealistas, ou mesmo na de um diplomata responsável por convenções e tratados, nada deveria impedir esse senhor da escrita de depositar (ou até de jogar) suas entrelinhas onde bem entendesse.
Bingo! Aí está a grande utilidade das entrelinhas: elas permitem, justamente, que possamos retirar de um texto texto qualquer aquilo que pretendemos, elas nos dão uma liberdade fundamental: a de ler um texto onde não existe nenhum texto, apenas a imaginação.
Bingo bis! Está aí: as entrelinhas nos libertam da rigidez dos contratos formais e daqueles compromissos muito estritos. Elas “estão” ali para nos dizer: aproveite, rapaz, levante os olhos desse texto chato e deixe voar a sua imaginação. Como diz a minha epígrafe bem escolhida, elas encerram uma possibilidade, sugerem a liberdade de interpretar, são capazes de acomodar os ânimos mais opostos... (ops, sem querer voltei às minhas reticências...).
Acredito que o autor (ou a autora) da epígrafe refletiu muito sobre a vida, seus contornos, seus retornos, suas surpresas e seus imponderáveis. Ele (ou ela) pode estar querendo dizer algo com seu minúsculo tratado sobre as entrelinhas. Deve ser alguém com experiência no manejo da palavra escrita e, sobretudo, dos sentimentos, seus e os alheios. Deve ter dedicado muitas linhas ambíguas a um amigo distante ou fora do seu alcance, momentaneamente. Refletiu muito sobre a vida e o coração, certamente...
A mim, também, como ao/à epigrafista, sempre me encantaram as entrelinhas. Curioso que, ainda antes de ter recebido as palavras em epígrafe, de uma maneira que agora me escapa, eu já tinha planejado escrever o meu mini-tratado das entrelinhas, precedendo uma poesia sobre os dois pontos e um mini-conto sobre o ponto e vírgula (todos eles sinais ambíguos, como o leitor há de perceber, promessas de algo mais, janelas para rotas ainda não determinadas, abertura para possibilidades imensas de dúvidas e de reflexões...). Eu ainda não tinha o formato definitivo deste novo mini-tratado, mas pretendia que ele fosse tão “obscuro” quanto o primeiro, das reticências, tão cheio de promessas quanto um travesssão de diálogo, tão aberto às confusões da mente quanto um salto de parágrafo, tão surpreendente quanto uma exclamação e tão questionador quanto um ponto de interrogação. Sou um diacrítico da escrita...
Pois eu fiquei muito meses parado, como que dominado por um ponto final, até que o/a epigrafista socorreu-me com suas frases esclarecedoras. Abriu-se todo um novo capítulo e eu resolvi escrever este texto, que, se não tem bem a forma de um mini-tratado, pretende pelo menos retomar a tradição dos diálogos peripatéticos, uma conversa com um interlocutor qualquer, que nos acompanha por um breve momento em nossa trajetória de pensamentos e reflexões. Uma rota ainda aberta, espero...
No silêncio de uma tela de computador, também há um pouco do mistério que ficou para trás, experiências que deixaram suas marcas em nossas mentes, sensações que ocuparam por alguns momentos nossos corações (ou que ainda estão lá...). São esses estados de espírito que estão presentes nas entrelinhas: eles não são visíveis, mas estão ali para os que sabem ver e sentir...
Na verdade, como sabem os cartógrafos, geógrafos, topógrafos e, em especial, os poetas, o horizonte é uma linha elástica, que recua cada vez que nos aproximamos dela. Sua paciência é infinita, assim como são infinitas as possibilidades abertas pelas entrelinhas... (ainda mais com reticências, desculpem a insistência...).
Eu queria dizer ao/à epigrafista involutário(a), que ele(a) muito me ajudou na tarefa de juntar minhas poucas idéias sobre as entrelinhas. Sem os conceitos ali transcritos eu jamais teria descoberto o poder secreto das entrelinhas, talvez eu nunca me decidisse por escrever este texto, todo ele feito nas entrelinhas. Não sei se ele será capaz, como escrito na epígrafe, de acomodar ânimos opostos, mas ele certamente ajuda a construir um cenário de mistério, um horizonte de esperança, uma promessa não cumprida. Eu consigo ver, nas entrelinhas deste meu texto, possibilidades ainda não exploradas, sugestões nunca realizadas, sonhos muitas vezes sonhados e ainda não acontecidos, pelo menos, até agora. Mas isto nada prejulga quanto ao futuro...
É tudo o que se espera, aliás, de um mini-tratado sobre as entrelinhas...
Brasília, 22 de janeiro de 2009.
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