terça-feira, agosto 17, 2010

Drummond, sobre a ausencia

Um poema apropriado às circunstâncias presentes:

A um ausente
Carlor Drummond de Andrade

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.

Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu,
enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.

[Postado em Shanghai, 17.08.2010]

5 comentários:

Glauciane Carvalho disse...

Drummond sem dúvida é uma das almas mais completas que existiu em nossa literatura. O Brasil carece, hodiernamente, de mais "Drummonds"...

Mais Uma Maria disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Glauciane Carvalho disse...

O senhor deveria alimentar mais este blog. Pois é nele que podemos analisar um outro "Paulo Roberto de Almeida", um tanto mais sensível do que dos outros blogs. Gostaria de ver aqui escrito textos como: "O Yin e o Yang dos sentimentos", onde o senhor disse que tinha começado a ler o livro, mas jamais comentou se terminou e a que conclusão chegou. Outro texto interessante também é o "A parábola de Ícaro" onde o senhor disse que voltaria ao assunto em outro texto e não voltou.
Prezado professor, a vida acadêmica às vezes é cruel, ainda mais quando estamos no início de uma carreira. Sendo assim, é necessário um espaço onde possamos ler algo leve e agradável para podermos desviar um pouco o cansaço das pressões diárias com os vários compromissos que assumimos.
Certamente, o senhor também deve ter seu tempo escasso, contudo, mesmo assim, peço para que não abandone este espaço, pois é um canal acadêmico de sensibilidade plena. Talvez o senhor nunca tenha percebido isso. Mas é fato.

Paulo R. de Almeida disse...

Vou atender à recomendação agora mesmo, com mais um minitratado de minha série, este escrito totalmente de improviso, sem qualquer preparação ou esquema pré-elaborado. Fruto da pura imaginação, como o nome, aliás.
Veja em meu blog principal...

Glauciane Carvalho disse...

Prefiro ler textos desta casta neste espaço, e não no principal, pois acredito que aqui é mais ambientalizado. Belo texto, mas não atendeu ainda às minhas expectativas. Entenda professor, na "Parábola de Ìcaro" há uma fusão de idéias que nos remete à mitologia; a realidades cotidianas e uma moral da história. Acho que é isso que procurei aqui: esta FÓRMULA una, exclusiva do senhor escrever. De qualquer forma, este mini-tratado é muito bonito, mas realmente gostaria de algo semelhante ao de Ìcaro, talvez a continuação...
Mas fico muito feliz e satisfeita que tenha compreendido a necessidade de nós acadêmicos em apreciar seus belos textos. O senhor realmente é um excelente escritor. Continuarei acompanhando este blog, assim como faço diariamente com o Diplomatizzando.
Ficam registradas as minhas saudações acadêmicas.